ENTRE O MAR E A SERRA


                                   Moramos a bordo de um veleiro, mas isso não quer dizer que a gente passe a vida inteira no mar, comendo peixe, se bronzeando, tomando banho de praia, velejando e enjoando mais do que tenha direito. A vida a bordo apenas nos da mais liberdade de decisão do que se estivéssemos presos aos encantos e chamados da vida urbana e suas arapucas.

                                   Fazemos o possível e o impossível para não voltar a se encantar novamente com os sons e cores das cidades. Não é tarefa das mais fáceis, até porque os reclames são insistentes e as ofertas são infindáveis. Tudo é voltado para a eterna prisão do modismo e das causas relâmpagos. Nada mais é eterno, inclusive os sentimentos, nada mais é concreto e tudo não passa de um dia para deixar de ser novidade e cair na vala comum do esquecimento. O mundo globalizado esta cada vez mais volátil e perigoso. Tudo hoje parece ser insignificante, até as nossas Leis. Diante de tanta informação sobrando, quem diria!

                                   Não estou pregando uma vida de eremita, nem um barco é lugar para se estar sozinho, que me desculpem os velejadores solitários, tanto é que não passamos à vida inteira no mar. O melhor de nossas velejadas são as chegadas em algum pequeno porto ou localidades ribeirinhas. Fazer novos amigos, conhecer novas culturas, saborear novas comidas, se encantar com a paisagem e viver a vida. Isso tudo faz parte do enredo de um cruzeiro a vela.

                                   Prego sim a vida que sei que existe além do horizonte. Nosso rumo esta traçado em busca da simplicidade que ficou perdida em alguma parte do mundo. Nosso objetivo é a sinceridade ainda presente nas pessoas, mas escondidas pela falsa razão. Nossa bussola indica um norte verdadeiro que apenas aqueles de bom coração sabem onde fica. O mundo seria diferente se tivessem mais velejadores singrando os mares. Quem anda pelo mundo guiado pelos ventos e pelos mares, sabe ouvir, esperar, respeitar, obedecer, reconhecer, amar e o mais importante, sabe que a solidariedade e a ética dignificam o homem.

                                   Com o Avoante ancorado na segurança do Iate Clube do Natal e passando por algumas manutenções de rotina, essa parte nunca acaba, nossas cabeças viajantes nunca param de maquinar. Os lugares a serem visitados se multiplicam a nossa volta e fazer uma escolha não é tarefa das mais fáceis.

                                   Fazer o caminho do litoral de carro, às vezes não é a melhor escolha. Lucia tem mania de dizer que uma praia vista do mar é outra coisa, e acho até que isso esta ficando enraizado em nossa mente, porque é assim mesmo que vemos.

                                   Queríamos mesmo era velejar, sair cortando o mar com a quilha do nosso Avoante, soltar e caçar velas, sentir o mar bater no rosto, escutar o assobio do vento nos estais, esquadrinhar o mar até onde a vista alcança, escutar o namoro das ondas com o casco, dormir naquele balanço desconexo e acordar quando sentir que o balanço mudou. Queríamos saborear o gosto de sal escorrendo em nosso rosto e se deliciar quando a noite cobrir o dia e as estrelas formarem aquele belo manto de luzes brilhantes.

                                   O Avoante parece sentir que esse dia se aproxima, as coisas a bordo começam a se organizar, apesar de uma presente e a ativa síndrome do jaquismo. Já que estamos aqui, porque não fazer uma pintura interna. Já que estamos aqui, porque não trocar o sanitário, já que estamos aqui… . Mas, ele sabe esperar e sabe que toda essa espera é para o seu bem e para a boa recuperação da tripulação. Afinal, barco tem alma e além de tudo ele sabe ouvir.

                                   Sobre a mesa de navegação as Cartas Náuticas deram lugar a mapas e roteiros de viagens. De uma coisa estávamos certos, não queríamos cidade grande e não iríamos ao litoral. Tínhamos cede de paz e tranquilidade coisa que no litoral, nesse período, não existia, ainda mais indo de carro. Precisávamos de história, cultura, calor humano e ver um mundo diferente dos grandes centros. Queríamos o simples, o pé no chão e o olhar sincero das pessoas. Não queríamos ir longe, apenas o bastante para ainda poder sentir a pulsação firme do coração do nosso barquinho.

                                   O mapa indicava para o oeste e com isso o litoral ficaria para trás. As grandes cidades ficariam para trás. Uma bonita serra se destacava em meio aos relevos e traçados. É para lá que nós vamos! Serra da Borborema, cidade de Bananeiras.

 

Nelson Mattos Filho

Velejador

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