Arquivo da categoria: Coluna da Tribuna do Norte

Carta ao meu Pai

PapaiPapai, hoje é mais um dia de te homenagear. Aliás, todos os dias é o dia de te render homenagem e também a todos os pais do mundo, pois vocês são tão especiais que facilmente se transformam em nossos super heróis.

Hoje olhando para trás me espantei em como a vida caminha rápido. Parece que foi ontem que ouvi o seu trombone acariciar o mundo pela última vez, com aquelas melodias tão suaves que somente o senhor sabia reproduzir. Em meu coração ainda ressoa a alegria de te ouvir tocar com aquele gingado inconfundível. O senhor era o máximo e até os seus colegas de música eram seus fãs.

Por falar nisso, como vai à orquestra do céu nesses tempos de grandes aquisições literárias para o reino do paraíso? Fico imaginando em como deve ter sido boa a festança para recepcionar os incríveis contadores de histórias, causos e contos Ubaldo e Suassuna. Com certeza o senhor deve ter puxado um frevo ou um chorinho para a triunfal entrada desses imortais no mundo dos encantados. Aliás, vocês são todos imortais.

Por aqui a vida segue em frente, mas não com aquela expectativa que tínhamos sobre os futuristas anos dois mil. Nada de carros voadores, naves espaciais cruzando os céus das grandes metrópoles, exércitos de robôs e nem armas de raio lazer. A Lua e o planeta Marte continuam desabitados e nenhum sinal que um dia será. O mundo parece que tem caminhado para trás, tamanho é a barbárie e a crueldade que exalam odores pelos poros das cidades.

Já estamos em 2014 e continuamos convivendo com as mesmas doenças de outrora. A fome continua caminhando faceira pelo mundo. Crianças continuam morrendo e agora também por leniência dos pais e autoridades. Idosos continuam injustiçados e continuamos apostando nas mesmas fórmulas mágicas ditadas pelos espertos da vez. Somos mesmo engraçados e fáceis de deixar manipular.

As guerras são as mesmas, os novos vilões usam os mesmos trejeitos dos antigos, os donos do mundo continuam zoando a nossa paciência, nosso Brasil continua cercado de currais, o expresso 2222 ainda não circulou e o seu Rio de Janeiro continua lindo, mas com ressalvas.

Pai sabe de uma coisa, vou deixar essas notícias ruins de lado e vou falar de coisas boas. Sim, nossa Ceminha está cada dia mais linda e maravilhosa. Dia desses ela andou fazendo umas estripulias que deixou todos nós em polvorosa, mas tudo não passou de um grande susto e a alegria voltou a reinar em nossa casa. Ceminha continua forte como sempre foi.

Continuo no mar e o Avoante continua sendo minha morada por essa vida meio louca e nômade que inventei viver. Até já andei pensando em desembarcar, mas em terra é tudo tão incerto e nebuloso que o pensamento logo se desfaz no vento. Pai, o mundo está muito complicado, amuado e parece até que todos falam línguas diferentes. No mar a vida é mais humana, mais simples e marinheiros se entendem apenas com gestos e intenções.

Ainda guardo na memoria suas histórias dos tempos de Marinha do Brasil e sempre que estou navegando me pego vigiando o horizonte em busca de algum sinal de sua presença. Vou confessar um segredo: Dia desses escutei claramente sua voz enquanto ao longe surgiam nuvens escuras. Olhei ao redor e não vi ninguém e Lucia dormia tranquilamente embalada pelo balanço do barco. Aquilo foi um chamado de alerta e uma indicação de mudança de rumo e sabe Deus se não foi realmente o senhor que estava ali a nos proteger.

Na verdade nem sei o porquê de estar lhe dizendo tudo isso, pois tenho a mais absoluta certeza que o senhor sabe de tudo o que acontece aqui e até esteve junto de Ceminha durante a enfermidade que a derrubou por alguns dias. Talvez seja porque necessito saber mais sobre sua vida ai em cima ou mesmo escutar sua voz ao menos mais uma vez.

Sinto sua falta todos os dias desde sua partida. Naquele dia o senhor era um homem de alma jovem, apaixonado pela vida e por incrível que pareça, tinha um pouco mais do que a minha idade hoje. Naquele dia o senhor queria me dizer alguma coisa, mas as palavras insistiam em se misturar com o nada. Corri como um louco pelas ruas da cidade, mas infelizmente não consegui chegar a tempo. Perdoe-me Pai.

Queria poder lhe dar um abraço apertado, um beijo em sua face, alisar seus belos cabelos brancos, dizer que te amo, levantar mais um brinde, escutar mais uma vez seus discursos entre os amigos e ouvir aquela velha frase do seu grande amigo, Bianor Medeiros, que o senhor gostava de repetir: Por que choras…?

Choro por você meu Pai! Um grande beijo e feliz dia dos Pais.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A vela pede socorro

IMG_0503

Nas minhas navegadas por ai tenho acompanhado os altos e baixos em que vive o mundo da vela no Brasil. São situações que passam despercebidas até mesmo pelos mais habituais frequentadores dos clubes náuticos, devido à sutileza da brisa que sopra contrário.

A grande maioria dos grandes clubes náuticos no Brasil, assim como no mundo, tem origem na coragem de abnegados velejadores que vislumbraram um legado de glórias e ideais mais humanos para as gerações futuras. Eles sabiam da capacidade dos bons ensinamentos que existe no mar, da imensidão diversa do litoral brasileiro e por isso enfunaram as velas para dar vida ao sonho.

Os clubes cresceram, modernizaram-se e chegou o tempo de rever conceitos, regras e normas. O mundo é outro, os ventos são outros e a vela, com suas lerdezas e dependendo do sopro da natureza, foi sendo empurrada para um cantinho qualquer de um pátio. E as regatas? – Quando der a gente faz, quando não der, empurra com a barriga e deixa para a próxima!

O mundo pede velocidade, dinamismo, agressividade. As pessoas se veem cada vez mais absorvidas pela necessidade da urgência, mesmo sem saber qual, e nada disso parece combinar com um barco que para se movimentar precisa de uma coisa tão simples que é o vento. Continuar lendo

Vivas a um grande velejador

Regata Batalha Naval do Riachuelo 162

Não sei se vocês sabem, mas assino há mais de sete anos uma coluna dominical no Jornal Tribuna do Norte, com o título Diário do Avoante e foi de lá que  surgiram os títulos do blog e do livro. São textos que falam da vida, do mar, de sonhos, aventuras, alimentação, cotidiano das cidades e alguns deles, de vez em quando, aparecem por aqui. O texto Vivas a Um Grande Velejador, foi publicado em 25 de Maio na Tribuna do Norte e até já deveria ter sido postado aqui, mas tudo tem seu tempo.  

Dizem que tem coisas que surgem quase do nada, basta uma raspada de olhar, um esbarrão casual ou simplesmente um nada de nada para que haja acontecência. E foi assim que aconteceu comigo quando avistei um barquinho chegando lá para as bandas de numa ilha pernambucana chamada de Santo Aleixo.

Foi lá o meu primeiro contato com um barco a vela e vale dizer que foi mais do que casual, pois estávamos ali atendendo um convite de um amigo para um passeio em sua lancha e já estávamos nos conformes para zarpar de volta a praia de Tamandaré, local de nossa estadia.

O veleirinho era tripulado por dois velejadores e eles vinham com o rosto mais chamuscado de sol do que orelha de pescador. A coisa só não estava mais feia, porque uma esbranquiçada pasta branca dava ao rosto dos velejadores um ar meio fantasmagórico, porém aliviando o queimor. De uma coisa eu lembro bem: Os caras estavam cansados, mas felizes.

Trocamos algumas palavras, mais por curiosidade minha do que a vontade deles responderem. Ajudei a empurrar o veleiro sobre a areia da praia e demos adeus aos dois, sem antes não deixar de desejar sucesso na empreitada, pois os caras tinham planos de encerrar o passeio em Maceió/AL. E assim foi feito, pois tempos depois soube de todo o ocorrido, tintim por tintim.

Os dois aventureiros eram Cláudio Almeida e Eder, que faziam parte da flotilha de vela do Iate Clube do Natal e aquela já era a segunda viagem da dupla. O barco, um Tornado, veleiro multicasco muito rápido, mas sem nenhum conforto aos tripulantes numa empreitada tão longa. Façanhas assim que marcam a bravura dos verdadeiros homens do mar.

Sei que outros velejadores já fizeram viagens maiores em barcos semelhantes e pode ser que muitos achem que isso hoje em dia nem seja uma novidade tão aventuresca como possa parecer, mas até aquela época eles foram os únicos norte-rio-grandenses a realizar e obtendo sucesso na ida, quanto de volta.

É difícil o reconhecimento quando não existe a presteza de querer fazer. Cláudio e Eder, naqueles longínquos anos 90, elevaram o nome da vela potiguar a um patamar merecedor, pois o clube de onde eles eram crias nasceu, cresceu e venceu com as velas enfunadas pelas águas do velho Potengi.

Até hoje a aventura da dupla é festejada e comemorada nos alpendres da Federação Alagoana de Vela e Motor e isso qualquer um pode comprovar, basta apenas que tenha a alegria de sentar para um gostoso bate papo, regado à cerveja gelada servida por Seu Zezé, com a turma boa que faz o mundo da vela das alagoas. Fotos da dupla e da festa da chegada fazem parte do acervo histórico da vela alagoana, pois assim faz o povo do mar diante das conquistas. Reconhecimento e divulgação como incentivo para as gerações futuras!

Cláudio foi o guru que me iniciou na vela e me ensinou muito do que sei hoje. Foi através da imagem daquele barquinho chegando na Ilha de Santo Aleixo que o mundo náutico se abriu em mil horizontes em minha frente.

Em 1998, ano em que passei a fazer parte do quadro de sócios do Iate Clube do Natal, por indicação dele, Cláudio era a vela mestra que movimentava o iatismo potiguar. Incentivador voraz e incansável para transformar as regatas em uma festa de alegria e competitividade, não media esforços para tal.

Brigador, agitador, brabo como um siri numa lata, mas quando o assunto era vela e regata lá estava ele, com sua verve bruta e inconfundível e com grande capacidade de transformar qualquer veleirinho ronceiro em uma bala.

Hoje ele é egresso do quadro social do Iate Clube do Natal, mas, vez por outra, aparece no clube como convidado, e não mais, para servir como tripulante em algum veleiro. Mas ao chegar ao clube sua alegria não é a mesma de outrora, pois no fundo de sua alma lateja a dor da tristeza que marcam aqueles que foram atraiçoados por força de alguma ordem modernosa. Como se a história pudesse ser apagada.

Uma sociedade se faz com história, reconhecimento, honradez, conquistas e vitorias de seus guerreiros. Homens que deram o sangue e a alma para elevar a bandeira e cravar no olimpo a espada da luta vitoriosa.

Cláudio Almeida, meu amigo e extraordinário velejador, a vela potiguar sem a sua garra navega com as adriças folgadas e velas rizadas. Saiba, e sei que você sabe, que para o sempre seu nome estará talhado na história do Iate Clube do Natal, que lhe deve um eterno e merecido reconhecimento.

Caro amigo, a página desse Diário hoje é sua. Parabéns e muito obrigado pelo mundo maravilhoso que você me fez enxergar.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A Tempestade – Parte 17

nat rec 2012 (12)

A conta gotas! É assim que defino a Tempestade contada aqui pelo amigo e velejador Michael Gruchalski, mas nem por isso deixa de ser uma história fantástica, já que o Michael sabe como prender a atenção do leitor. O último capítulo da Tempestade foi publicado aqui em 29/03, VEJA, e naquela postagem torci para que o velejador não resolvesse hibernar durante o Outono. Faltou pouco! Há, ia esquecendo de dizer que a imagem que ilustra esse texto é do amigo, velejador e fotografo Marcelo Barreto, feita durante uma dura velejada a bordo do Avoante entre Natal/RN e Recife/PE.

A TEMPESTADE

A APROXIMAÇÃO DA COSTA – Michael Gruchalski

Seis hora da manhã. A vela de proa não trabalhava mais por falta de vento. A escota batia nos brandais com um ruído metálico que ecoava na mastreação. Nosso motor funcionava bem, quase em marcha lenta, empurrando o barco a apenas dois nós. Como o mar estava relativamente calmo, naquela velocidade, ainda dava para segurar a cana de leme por dentro sem que o conjunto derrapasse e saísse da água. Na descarga, pela popa, aquele som seco e ritmado dos gases e da água de refrigeração. Transmitia uma sensação de conforto para meus amigos que dormiam no cockpit e outra sensação de segurança em mim que segurava a cana de leme.

Dali a pouco, para acelerar e aumentar a velocidade, alguém teria de ir para o trapézio e manter com a força da perna o leme para baixo. O sol jorrava seu calor por cima dos nossos corpos cansados. Nuvens altas, bem brancas e soltas vinham agora do sudeste. Denunciavam um dia de calor intenso. Como nós, o mar, cinco horas depois da tempestade, decidiu descansar também. Havia, entretanto, ainda pequenas ondas desencontradas. Algumas, mais teimosas, batiam secas no costado e sacolejavam o barco. Elas eram o resultado direto da mudança da direção do vento que girara de madrugada exatos cento e oitenta graus, de noroeste para sudeste. Dentro de duas ou três horas, até elas, dormiriam.

Nosso rumo era sudoeste, quase oeste. O gps indicava que estávamos a onze milhas das primeiras plataformas de petróleo e dezessete do farolete na entrada do rio Sergipe em Aracaju. Não dava para ver nada no horizonte pelo nossa proa, mas mais à direita, bem no leste, reconheci, na bruma da manhã, uma tênue faixa de terra cinza clara. Que bom, pensei. Sergipe estava ali. Terras, praias e cidades do norte do estado, bem próximas à capital. Perto, mas longe.

Em condições normais, três horas de viagem. Uma vez lá, aguardava-nos a temida barra rasa do rio Sergipe onde ficava o Iate Clube. Sem ajuda de algum barco piloto, com certeza, uma aventura no escuro. Nossas cartas eram confiáveis, claro, mas elas não tinham nenhuma ideia de como haviam sido as movimentações aleatórias dos bancos de areia do canal desde os tempos em que haviam sido impressas ou digitalizadas. Investir pela barra de um rio, encontrar e seguir pelo canal profundo que sempre existe, é uma arte reservada a navegadores locais. Poucos metros fazem a diferença entre encalhar ou passar. Forasteiros, como nós, devem ficar ao largo, aguardar socorro de reboque ou procurar um porto seguro em outro lugar.

Eu vi primeiro.

Debruçado no leme, procurando descansar, vi, pelo leste, um ponto preto na linha do horizonte. Um barco! Um barco de pesca, com certeza. Não havia dúvidas, era um barco de pesca. Pequeno demais para ser um navio, próximo demais para ser um ponto em terra e muito definido nos contornos para ser a ponta de uma plataforma. Só não dava para definir se estava vindo em nossa direção. Precisava esperar um pouco. Não acordei meus amigos. Eram sete e meia. Viesse de onde viesse, havia saído de madrugada para pescar, logo após a tempestade o que significava garantia de tempo bom. Continuar lendo

A face obscura do sim

cidade01 Janeiro (98)

O cockpit do Avoante é a caixa de ressonância onde me recolho para escutar os dramas que envolvem as cidades. É neste mundinho tão pequeno, com pouco mais de três metros quadrados, que me vejo atordoado com os ecos trazidos pelos ventos que chegam muitas vezes acompanhados de amedrontosas nuvens negras. Embasbacado, observo que nós humanos nos consumimos feito vermes em meio à podridão que se espalha por todos os lados com a leniência de nossa vã consciência que é sempre tendenciosa em favor dos desmandos.

Aplaudimos, abençoamos e engolimos as migalhas atiradas por governantes que sabem muito bem que temos paixão em viver a vida de pombos. Voamos em cima do milho jogado nas calçadas da vida sem nem saber se é ração ou veneno. Mesmo assim, se for uma coisa ou outra, somos obedientes e baixamos a cabeça, tanto para agradecer o alimento, quanto para desculpar a armadilha cruel. E o pior de tudo é que o nosso cabedal de desculpas é depositado em um arquivo sem fim e sem regras, pois o que vale mesmo é desculpar, lavar as mãos e partir para outra.

Se a cidade chora é chegada a hora de armar o circo. Se a cidade sente fome e chegada a hora de espalhar o pão. Se a cidade reclama e chegada a hora de mostrar o que ninguém consegue enxergar. Se a cidade adoece é chegada a hora de remediar. Se a cidade acalmou, tudo volta a ser como antes até que os pombos voltem a se alvoroçar.

Uma leve brisa de través faz o Avoante se mexer na ancoragem para mudar o cenário da paisagem. Mesmo assim continua chegando ecos do desespero vivido nas entranhas da cidade e que já alonga seus tentáculos sobre os mares. Ecos da violência que a cada dia retrocede no tempo e nos leva a viver o tempo das barbáries.

Para esse mau não existe remédio, nem pão, nem circo, mas existem ainda os louros da desculpa, em que se debruçam filósofos, psicólogos, analistas, palpiteiros, psicanalistas, juízes, promotores, religiosos, políticos e uma infindável comitiva de entendidos e muito bem pagos. Todos convergem para o foco da causa, mas divergem dos efeitos do antidoto para aplacar o vírus, pois o soro passará inevitavelmente nas suas próprias veias.

Do meu cantinho no cockpit tento enxergar o rosto de algum cristão, ou ateu, que ainda arregale os olhos para a crueldade da violência desmedida que assola as ruas, invade lares e não distingue mais ninguém. Os atos estão cada vez mais bárbaros e dotados de uma crueldade que nem os vermes ousariam ter.

Não existe mais o espanto natural do ser humano. Não existe mais a revolta natural daqueles acometidos pelo furor do mau. A mente calejou e agora tudo que vier é normal e entra apenas para a área dos números onde não somos nada. Fomos expulsos do mundo dos sentimentos e caímos no lamaçal sem alma do quadrado das estatísticas. Deixamos de ser humanos e continuamos aplaudindo, dando vivas e defendendo nossos reis e rainhas em seus castelos emporcalhados.

Um novo balanço, dessa vez provocada por uma marola, e mais uma vez o Avoante rodopia sobre a ancoragem. Será que meu veleirinho tenta me mostrar novos ares para me forçar a olhar com mais serenidade para a cidade? Não sei, mas um grito agudo me aflige a alma e me faz navegar no vazio da razão.

O vento faz chegar até mim palavras soltas, fragmentos de frases, buxixos vindos dos becos e me recordo do início do livro Tocaia Grande, do baiano Jorge Amado de todos, e lá está escrito assim: “Digo não quando todos dizem sim em coro uníssono. Quero descobrir e revelar a face obscura, aquela que foi varrida dos compêndios de História por infame e degradante; quero descer ao renegado começo, sentir a consistência do barro amassado com lama e sangue, capaz de enfrentar e superar a violência, a ambição, a mesquinhez, as leis do homem civilizado. Quero contar do amor impuro, quando ainda não se erguera um altar para a virtude. Digo não quando todos dizem sim, não tenho outro compromisso”.

Tocaia Grande é uma obra viva, atual e incrivelmente moderna para o momento em que estamos vivendo. É difícil a cidade dizer não, principalmente nos seus bolsões de miséria, e por mais que sejamos massacrados pelos desmandos que gera o caos, continuamos dizendo sim, pois é nisso que apostam aqueles disfarçados de bons moços.

A violência está ai, sem disfarce, sem mascara, sem subterfúgio, sem freio, sem controle, sem fronteiras, multifacetada, se renovando a cada segundo e assumindo sem medo que é a dona da razão. A barbaridade impera sobre nossas cabeças, mas infelizmente vamos continuar dizendo sim.

Vida de pombo? Acho que nem para isso servimos.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Sacrifício

IMG_0486

“Sacrifício é a prática de oferecer como alimento a vida de animais, humanos, colheitas e plantações, aos deuses, como ato de propiciação ou culto. O termo é usado também metaforicamente para descrever atos de altruísmo, abnegação e renúncia em favor de outrem.”

Fui buscar essa definição nas páginas dos dicionários digitais por casual curiosidade, pois no meio náutico sempre ouço alguém dizer que vai fazer um tremendo sacrifício para aceitar o convite de um amigo ou de um familiar para uma velejada. Sendo assim, o passeio não tem a menor possibilidade de ser divertido.

Alguns velejadores ainda se apegam na palavra para chantagear a esposa e fazer que ela o acompanhe nas suas aventuras pelo mar. – Poxa, eu faço tanto e você não pode fazer um tantinho assim por mim! E assim, lá vai a esposa se submeter ao sacrifício. Vai uma vez e escapa pela tangente tantas outras puder escapar.

Não é com sacrifício que se aprende a gostar de velejar, mas sim com muita boa vontade e querer. Sou da opinião de que nada que se faça com sacrifício seja prazeroso, principalmente no mar.

Até velejadores experientes se apropriam do nome para dar mais veracidade e drama as suas conquistas. Muitas vezes a navegada nem foi das mais difíceis, mas como o intuito é impressionar o público, eles fazem questão de levar o sacrifício ao pódio. E alguns chegam até a derramar lágrimas.

As religiões adoram falar no tema e existe até uma certa teologia do sacrifício que apresenta diversas razões para a realização do sacrifício. Quando não é um animal que esteja passando por perto, o sacrificado pode ate ser alguém que não reze na cartilha do reverendo, mas nunca ele e nem os seus.

Graças a Deus que no Novo Testamento está escrito que o sacrifício hoje em dia é coisa desnecessária, pois Jesus Cristo cumpriu todas as exigências da lei judaica e se ofereceu ao sacrifício expiatório, recebendo todo o castigo pela culpa dos homens. Mesmo assim outras correntes religiosas não querem nem saber dessa verdade e ainda sobra sacrifício para um bocado de animal e gente desavisada. Quando existe a fé cega e a faca amolada não tem lei no mundo que mude a sina do sacrificado. Mas vamos deixar as crenças de lado e vamos voltar para o nosso sacrifício no mar antes que eu seja sacrificado pela ira santa.

Esse assunto me encucou enquanto conversava com alguns amigos sobre a sombra de um palhoção de clube náutico. Nesses ambientes refrescantes e regados a bons goles de cerveja estupidamente gelada sai tudo quanto é conversa, só não sai mesmo é a coragem de enfrentar o mar.

Um velejador que fazia parte da mesa etílico gastronômica disparou: “Eu nunca chamei minha mulher para velejar comigo, porque sei que ela não faria esse sacrifício por mim”. Outro mais ousado falou assim: “A minha já veio uma vez, mas quando o barco adernou ela deu um grito, ficou tesa de medo e pediu chorando para retornar ao clube e nunca mais entrou no barco”.

Fiquei ali um bom tempo ouvindo as opiniões e imaginando até onde aqueles meus colegas desejavam realmente que as esposas embarcassem. Todos se achavam donos da situação e da verdade e nem de longe passava pela cabeça deles que o problema estava neles e não nas esposas.

Lucia gosta de dizer que velejar é um sonho do homem e a mulher apenas acompanha por querer estar junto daquele que ama. Se ela tem razão, o que eu acho uma verdade, então porque não se trabalhar com a vontade de fazer com que elas embarquem nesse sonho? Não ofereça o sacrifício como solução e sim a compreensão e a paciência da conquista.

Se o meu colega que acha que a mulher nunca ira navegar com ele fosse um pouco menos egoísta conseguiria convencer a tripulante a embarcar. Se o outro que adernou o barco a ponto de traumatizar a esposa fosse mais delicado na regulagem das velas, com certeza a esposa ainda hoje estaria a bordo. Afinal a velejada era apenas um passeio de fim de tarde e não uma regata.

Não existe teoria e nem papel passado em cartório sob a benção de um juiz para se conseguir a esposa como tripulante. Existe sim, afinação, compreensão, companheirismos, amor e querer estar junto. Sacrifício jamais.

Já falei aqui que o mar não é laboratório para se testar a paciência dos outros e muito menos altar para oferecer alguém em sacrifício. Deixe isso para os bárbaros da fé, que deles se encarregaram os deuses do juízo final.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Dia de carinho e amor

1 janeiro (7)

Hoje é mais um dia feliz. Hoje é mais um dia das Mães e por isso, mais uma vez recolho as velas do Avoante, ancoro na segurança de um Porto Seguro e baixo a cabeça para render homenagens a Elas. Hoje não tem mar!

Hoje estou longe de minha Ceminha, que tem o coração maior do que o mundo. Alias, já faz um bom tempo que passo esse dia longe dela. É sempre assim quando estamos realizando o sonho de uma vida. Nem sempre as datas importantes casam com nossa vontade, mas nem por isso deixamos de sentir a presença daqueles que amamos. Minha Mãe é minha rainha e a ela devo respeito, atenção e amor.

No Avoante vivemos emoções difusas nesse dia. Primeiramente que nossas Mães nunca aceitaram, nunca compreenderam, sempre tiveram esperanças de nos ter de volta a terra firme e tudo isso gera conflitos e angústias.

Num segundo momento ficamos sem a presença física de Dona Lindalva, Mãe de Lucia, mas que até hoje sentimos sua presença sempre atenta a nos proteger. Será que pegamos realmente o caminho certo ou enveredamos nas variantes que faz da vida um infinito de escolhas? Será que poderíamos fazer mais? Difícil saber e mais difícil ainda é a decisão da escolha.

Explicar tudo isso a uma Mãe não é fácil, como não é fácil fazê-las entender que estamos bem. Mas hoje não é dia de explicações e muito menos de confundir a cabeça de uma Mãe. Hoje é o dia maior de homenageá-las e nada mais.

Sei da tristeza que invade Lucia todos os dias e me calo diante de silenciosos e disfarçados soluços diários e noturnos. Sei da sua dor em não poder mais abraçar aquela que tinha o rosto coberto de carinho quando a observava de longe. Sei também da sua força em se manter com a cabeça erguida, olhando o mundo de frente e encarando as divergências com um belo sorriso, mesmo que o coração esteja em pedaços.

Lucia é Mãe com “M” maiúsculo como são todas as Mães do mundo. Não esquece um segundo sequer dos filhos, dos enteados, meus filhos, e netos. Conhece todos com uma precisão clínica e facilmente decifra suas alegrias, seus medos, segredos e o mais remoto sinal de perigo que os ronde.

Ela diz que conhece pela voz, pelo cheiro, pelo olhar, pelo contato, pela falta de palavras e até pelo trejeito do caminhar. Sexto sentido? Acho que mais do que isso, pois percepção de Mãe não existe explicação. É assim e pronto!

Mas não deve ser fácil o papel de Mãe nesse mundo tão desumano que estamos vivenciando. Como seria bom se o dia das Mães fosse um dia de paz, harmonia e comemorações, mas nem sempre é assim, pois os noticiários estampam todos os dias casos de Mães agredidas, violentadas e maltratadas por monstros incapazes de viver em sociedade e encobertos pela lama fétida da crueldade, da imbecilidade e por um direito, sem nexo, com o pomposo nome de humanos.

Mãe é sinônimo de vida, amor, carinho, afetividade, paciência, humildade, sinceridade, honestidade, atenção, bondade, reconhecimento, dignidade, ingenuidade e de uma infinidade de bons sentimentos que norteiam a vida de um filho. Um filho ou um pai que agride uma Mãe, mesmo que com palavras, não merece o perdão dos seus pares.

Não confio, não acredito e repudio aqueles que abrem a boca para destratar a própria Mãe. Já cruzei rumos com alguns deles e em todas às vezes confirmei meus piores temores, pois me vi diante de pessoas amargas, perigosas, mentirosas e carregando no costado as armas da trairagem.

Mãe é o nosso bem mais precioso e nada e nem ninguém no mundo pode substituir.

Dizem que o mar modela os homens na rudeza do sol e do sal. Dizem até que os homens do mar são durões e alheios às emoções. Dizem um monte de coisas, mas para mim tudo são firulas e jogo de palavras para impressionar os incautos ou aqueles que veem o mar como um mundo misterioso e aventureiro. O homem do mar é dotado sim de muito sentimento e digo mais: O verdadeiro homem do mar tem na imagem da Mãe sua mais forte estrela guia e o farol que ilumina suas mais seguras navegadas.

Minha Mãe é minha luz, minha proteção e para ela tenho somente palavras de carinho e amor. Dona Lindalva, que hoje guia lá do alto nossos caminhos pelos mares, para o sempre terá o nosso amor. Através delas homenageio todas as Mães do mundo e me atrevo a pedir a todos os filhos que não transformem tudo de maravilhoso que uma Mãe representa em apenas um simples e casual presente.

Não existe presente mais gostoso para uma Mãe do que um abraço carregado de carinho e amor.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Um país imperdível

3 Março (302)

Certa feita um amigo chegou a bordo do Avoante com um livro que indicava mil lugares no mundo em que todos deveriam conhecer para poder morrer feliz. Pois bem, folheando aquelas páginas recheadas de bons roteiros e paisagens deslumbrantes, não pude deixar de sonhar com meus pés pisando naqueles lugares indicados pelo autor. Mas também me vi diante de uma grande utopia e de uma grande presunção do autor. Será que ele conheceu mesmo tudo aquilo?

Para começar a leitura fui direto aos roteiros indicados no Brasil e deixei de lado tudo mais, pois sempre tive vontade de conhecer o Brasil de ponta a ponta. Mas confesso que não me encantei com o que vi, pois sempre achei que o nosso País tem muito mais belezas do que possamos imaginar e aquele livro passou muito longe do que eu esperava ver.

Posso até pecar em não saber de quem é a frase: “O brasileiro não conhece o Brasil”. Mas sou sabedor da sua veracidade, pois não conhecemos mesmo. E para mim, o autor daquele livro não conheceu o nosso País, pois se tivesse conhecido teria que duplicar as páginas.

Você pode até achar que minha loa é carregada de um patriotismo barato, mas sou mais o Brasil com todos os seus trancos, barrancos e barracos.

Recentemente li um texto em um blog náutico onde o editor chamava atenção aos velejadores brazucas que saiam para uma volta ao mundo e subiam à costa brasileira como uma bala, sem nem ao menos conhecer a finco o mundo maravilhoso que existe no nosso litoral. Ele tem toda razão e aposto uma cocada que os nossos mais famosos velejadores não sabem o potencial existente no litoral brasileiro.

Em Fevereiro deste ano cruzei rotas na Ilha de Itaparica com um velejador gaúcho que há dez anos navega subindo o litoral brasileiro e somente agora aportou pela Bahia. Fizemos uma grande confraternização, pois eu estou em rota contraria há nove anos e o Avoante ainda não ultrapassou a fronteira do Senhor do Bonfim. Mas uma coisa temos em comum: Queremos conhecer tudo e olhe que muita coisa bonita ficou para a programação do retorno e mais um tanto vai ficar esquecido.

Passa longe de mim publicar um roteiro navegável com os lugares que deveriam ser conhecidos por onde passei, mas se me perguntam não me retraio em indicar, mesmo sabendo que pretensão e esperança são como impressão digital, cada um tem a sua. Quando se está no mar, então é que o bicho pega.

Como assim? Tudo depende dos efeitos meteorológicos e nesse mundo de coisas quase indecifrável representado pela natureza, um dia nunca é igual ao outro.

Mas já que enveredei pelos caminhos dos lugares imperdíveis, e como o autor do livro não mencionou, vou indicar um lugarzinho gostoso lá na foz do Rio Paraguaçu, e que no passado deve ter enchido de orgulho e desejos reis, rainhas, índios, mulatos, invasores, náufragos e degredados. Barra do Paraguaçu!

Joguei âncora por lá tempos atrás e volta e meia navegava ao largo de seu belo Farol e de sua prainha de areia branca, que acenavam num chamado feito canto de sereia. No finzinho do último mês de Março voltei a jogar âncora em suas águas.

A ancoragem não é tão fácil, pois a correnteza que desce o rio e uma grande laje de pedra que forma o fundo, merece um pouco mais de atenção, porém, nada que preocupe além da conta. Na primeira vez em que tivemos por lá o fundeio foi em mar de almirante, mas dessa vez o vento Nordeste baixou a patente para capitão de mar e guerra. Mesmo assim foi bom.

A Barra é uma antiga fazenda particular, mas que já tem muitas casas de veraneio erguidas como quem não quer nada. Na queda de braço entre dono e posseiros a balança está pendendo para o lado invasor. Ainda bem, pois podemos caminhar sem sustos por sua paisagem deslumbrante.

O Farolzinho branco que sinaliza aos navegantes a entrada de um potentoso rio histórico é um marco para a navegação pelas entranhas da Baía de Todos os Santos. A praia de águas límpidas e tranquilas é um convite a um delicioso banho de mar e duvido que tenha quem resista.

Um grande píer público, apenas para desembarque, é também um palanque para assistir um dos mais belos pôr do sol e admirar o navegar dos velhos saveiros e a maestria de seus mestres.

Ao noitecer, um silêncio encantador envolve o mundo e para quem está a bordo de um veleiro é a senha para uma feliz noite de sonhos.

Eita Brasilzão cheio de coisas bonitas para se ver!

Nelson Mattos Filho/Velejador

A Copa e a Ponte

ponte roubada (4) 

Nada como colocar o rosto no vento e escutar os sussurros que chegam como uma grande algazarra festejando o infortúnio que vem no rastro das grandes decisões equivocadas dos homens. Somos mesmo uma raça orgulhosa e cheia de vaidade tola quando temos a nosso favor a caneta da decisão. Mais vaidosos ficamos quando somos convidados para aplaudir em primeira mão as benesses que algum poderoso de plantão arma para nos iludir.

Sempre falamos mal dos famosos dribles governamentais apelidados de pão e circo, mas basta um afago qualquer que escancaramos a cara em um largo sorriso de aprovação, enquanto brindamos a cada copo servido com o líquido dos melhores rótulos. Somos bons nisso e aposto uma boa dose de cachaça Rainha se alguém me provar que nunca enveredou nessa seara.

Com a chuva caindo lá fora e o Avoante ancorado há muitas milhas de distância, numa breve férias de outono, passo horas do meu ócio voluntário a futucar notícias pela internet e me espanto a cada segundo com a ligeireza do mundo digital. É tudo num piscar de olhos e quem quiser que se meta a besta de tentar por um cabresto na fera.

Se um esquimó pula a cerca e entra numa fria lá no fim do mundo, no segundo seguinte um piauiense, de um Piauí mais quente, fica sabendo da fofoca gelada. Eita mundinho que ficou pequeno!

Mas com tanta ligeireza e com tanta informação rodando o mundo e se cruzando nas vias imaginárias da informática, ainda me abestalho com algumas notícias estampadas nas capas dos jornais como se fosse a maior das novidades do mundo. Tem mais novidade não homem de Deus, o que falta é uma boa investigação jornalista para se chegar aos fatos sem paixão ou ideologia.

Em uma dessas minhas navegadas pelas páginas da web me deparei com a história de um belo transatlântico mexicano que pretendia ancorar em Natal para desembarcar torcedores desejosos em assistir a Copa do Mundo. Pretendia, pois a altura da Ponte Newton Navarro não permite. Alias, não permite e todo mundo que flutua nas águas governamentais e turísticas já estão cansados de saber que não permite. Só não entendi o porquê do espanto!

Certa vez fui taxado de opositor e reacionário por dizer que a Ponte estava sendo construída em local errado. Para não perder a alegria apenas sorri e deixei o assunto morrer em cima da mesa. Novamente fui rebatido quando falei que a Ponte não estava concluída e não entendia o porquê da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte liberar a navegação sob ela. Dessa vez foi um Deus nos acuda e meu interlocutor ainda me fez duas perguntas instigantes: “Não está pronta?” “E aqueles carros passando ali em cima é miragem?”.

Como gosto de cutucar o cão com vara curta emendei: Não está pronta e ainda limitou o acesso ao Porto. Pronto, fechou o tempo!

Bem, a Copa do Mundo já está dando seus dribles pelas arenas construídas Brasil afora, mesmo sem a bola estar rolando, e a cada dia vamos assistindo o festival de faltas e penalidades máximas se esparramando pelos gramados dos noticiários. Se são fatos verídicos ou simples imaginação da mente fértil de opositores eu não sei, mas que tem muito lance merecendo um tira teima isso tem.

O lance do navio mexicano em Natal não vai precisar de tira teima, pois acho que não aparecerá nenhuma viva alma, nem mesmo os deuses da FIFA, para autorizar o teste. Os mexicanos vão rumar direto para a capital pernambucana e depois de dançar frevo e maracatu, os chapelões pegaram um buzão pelas estradas da vida.

Mas o problema maior da Ponte de Todos não é sua altura, já que no Brasil nunca se ligou mesmo para a altura das pontes e isso vem dos tempos do Império. Quem tiver seus vasos flutuantes que se lixe. O problema são as defensas de proteção dos pilares, que até hoje ninguém se interessou em resolver. Acho que nem o capeta queria estar na pele de um Capitão dos Portos se por um descuido qualquer um navio triscar na estrutura das pilastras.

Numa hora dessas vai ser tanta frase começando com “eu não sabia de nada” e tantos “vamos averiguar” que no final vai sobrar mesmo para quem tiver a infelicidade de estar passando no momento de um acidente.

No mês de Março uma balsa carregada de óleo de dendê se chocou com um pilar de uma ponte no estado do Pará e tudo veio abaixo. E olhem que por lá a FIFA não apita nada.

Eh, até a bola da Copa receber o primeiro ponta pé, muita água ainda vai passar por baixo da ponte.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O Sextante

IMG_0260

Sextante é um instrumento elaborado para medir a distância angular entre um astro e a linha do horizonte. Na navegação marítima ele é de grande importância, pois permite que um navegante bem treinado consiga tirar uma posição com bastante exatidão. O sextante surgiu em 1757 e há mais de duzentos anos se tornou um símbolo da navegação.

Hoje com o advento dos modernos GPS, o aparelhinho espelhado, e por isso mesmo apesar de simples muito frágil, tem ficado jogado dentro das maletas, mas vez por outra aparece um saudosista para ressuscitar sua história.

Dizem que ele ainda faz parte da lista de equipamentos obrigatórios nos grandes navios comerciais e nas frotas militares e fico feliz que seja apenas por lá, pois utilizar o aparelhinho espelhado a bordo de um veleiro de oceano é um Deus nos acuda.

Na prova para tirar carteira de Capitão Amador à autoridade marítima exige conhecimento dos segredos e cálculos sobre navegação astronômica e é justamente ai que o bicho pega. Os astros e seus cálculos de exatidão já tirou a alegria de muita gente boa.

Certa vez embarcamos um amigo que conhece tudo sobre sextante e astronomia para uma viagem até a ilha de Fernando de Noronha. Ele chegou a bordo e foi logo dizendo: Comandante, não vai ser preciso utilizar o GPS, pois as nossas posições tirarei pelo sextante. Respondi que tudo bem, mas decidi comprar mais uma boa quantidade de pilhas para alimentar o GPS. Quem vai ao mar avia-se em terra!

Nem bem saímos na boca da barra da cidade de Recife o caboclo já disse para que veio e o sextante não saiu do saco. Enquanto esperava ele se recuperar liguei o GPS e como ele não se recuperou só desliguei o bicho em Noronha. Ainda bem que comprei mais pilhas.

Estou eu em Salvador e me liga Elson Fernandes, Mucuripe, o mesmo que havia ido para Fernando de Noronha, querendo fazer um passeio pela Baía de Todos os Santos até a Barra do Paraguaçu. Respondi que podia vir e marcamos dele embarcar na Ilha de Itaparica. Ele foi logo dizendo que traria o sextante e que dessa vez a história tomaria outro rumo. Pois bem!

Elson Mucuripe, como ele é mais conhecido é um grande amigo, grande figura humana e dono de uma prosa e musicalidade acima da média, mas como tirador de ângulo é uma graça. Assim que levantamos âncora de Itaparica ele pegou o sextante para tirar a posição. Olhou, anotou, tornou a olhar, fez algumas contas e guardou o aparelhinho. Como quem não quer nada, mas querendo, perguntei sobre a nossa posição e ele respondeu: Acho que vou ter que refazer os cálculos mais tarde, pois por enquanto estamos na costa da Namíbia. Aonde homem do céu? Foi uma gargalhada geral a bordo.

Ancoramos na Barra do Paraguaçu com o Sol nos proporcionando um belo espetáculo no crepúsculo e depois de registrar aquele belo visual, desembarcamos para jantar na casa de Seu Lídio, um outrora comandante pelos mares da Bahia e padrinho da esposa do Mucuripe. Logo após o jantar, onde foi servida uma deliciosa moqueca de siri, lá vem o Mucuripe, meio que desconfiado e com os novos cálculos feitos, reafirmando que realmente naquela tarde estávamos navegando na costa africana. Danou-se! Ainda bem que tenho meu GPS.

Depois do jantar eu e Lucia voltamos para o Avoante e combinamos outra velejada para o dia seguinte, dessa vez até Salinas da Margarida, mas antes de sair iriamos tomar café na casa do Sr. Lídio. Assim que cheguei o Mucuripe me apresentou novos cálculos e dessa vez a coisa estava bem encaminhada, pois havia um erro de “apenas” oito milhas náuticas. Ah bom, pensei que nunca mais iria me achar dentro da Baía de Todos os Santos.

Como Salinas da Margarida fica a pouco mais de quatro milhas náuticas da Barra do Paraguaçu, não foi preciso o uso do sextante e para garantir que iriamos em segurança, entreguei o leme ao capitão de longo curso Lídio, e entre uma visada e outra fui me divertindo com a prosa do Elson Mucuripe e me deliciando com as histórias e experiência vividas pelo comandante Lídio.

Elson garante que um dia ainda vai cruzar os mares do mundo munido apenas de um sextante e uma bússola. Eu não tenho dúvida disso, pois apesar do desnorteamento que passamos, ele é um grande estudioso da navegação astronômica.

Namíbia! Se oriente homem!

Nelson Mattos Filho/Velejador