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A Copa e a Ponte

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Nada como colocar o rosto no vento e escutar os sussurros que chegam como uma grande algazarra festejando o infortúnio que vem no rastro das grandes decisões equivocadas dos homens. Somos mesmo uma raça orgulhosa e cheia de vaidade tola quando temos a nosso favor a caneta da decisão. Mais vaidosos ficamos quando somos convidados para aplaudir em primeira mão as benesses que algum poderoso de plantão arma para nos iludir.

Sempre falamos mal dos famosos dribles governamentais apelidados de pão e circo, mas basta um afago qualquer que escancaramos a cara em um largo sorriso de aprovação, enquanto brindamos a cada copo servido com o líquido dos melhores rótulos. Somos bons nisso e aposto uma boa dose de cachaça Rainha se alguém me provar que nunca enveredou nessa seara.

Com a chuva caindo lá fora e o Avoante ancorado há muitas milhas de distância, numa breve férias de outono, passo horas do meu ócio voluntário a futucar notícias pela internet e me espanto a cada segundo com a ligeireza do mundo digital. É tudo num piscar de olhos e quem quiser que se meta a besta de tentar por um cabresto na fera.

Se um esquimó pula a cerca e entra numa fria lá no fim do mundo, no segundo seguinte um piauiense, de um Piauí mais quente, fica sabendo da fofoca gelada. Eita mundinho que ficou pequeno!

Mas com tanta ligeireza e com tanta informação rodando o mundo e se cruzando nas vias imaginárias da informática, ainda me abestalho com algumas notícias estampadas nas capas dos jornais como se fosse a maior das novidades do mundo. Tem mais novidade não homem de Deus, o que falta é uma boa investigação jornalista para se chegar aos fatos sem paixão ou ideologia.

Em uma dessas minhas navegadas pelas páginas da web me deparei com a história de um belo transatlântico mexicano que pretendia ancorar em Natal para desembarcar torcedores desejosos em assistir a Copa do Mundo. Pretendia, pois a altura da Ponte Newton Navarro não permite. Alias, não permite e todo mundo que flutua nas águas governamentais e turísticas já estão cansados de saber que não permite. Só não entendi o porquê do espanto!

Certa vez fui taxado de opositor e reacionário por dizer que a Ponte estava sendo construída em local errado. Para não perder a alegria apenas sorri e deixei o assunto morrer em cima da mesa. Novamente fui rebatido quando falei que a Ponte não estava concluída e não entendia o porquê da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte liberar a navegação sob ela. Dessa vez foi um Deus nos acuda e meu interlocutor ainda me fez duas perguntas instigantes: “Não está pronta?” “E aqueles carros passando ali em cima é miragem?”.

Como gosto de cutucar o cão com vara curta emendei: Não está pronta e ainda limitou o acesso ao Porto. Pronto, fechou o tempo!

Bem, a Copa do Mundo já está dando seus dribles pelas arenas construídas Brasil afora, mesmo sem a bola estar rolando, e a cada dia vamos assistindo o festival de faltas e penalidades máximas se esparramando pelos gramados dos noticiários. Se são fatos verídicos ou simples imaginação da mente fértil de opositores eu não sei, mas que tem muito lance merecendo um tira teima isso tem.

O lance do navio mexicano em Natal não vai precisar de tira teima, pois acho que não aparecerá nenhuma viva alma, nem mesmo os deuses da FIFA, para autorizar o teste. Os mexicanos vão rumar direto para a capital pernambucana e depois de dançar frevo e maracatu, os chapelões pegaram um buzão pelas estradas da vida.

Mas o problema maior da Ponte de Todos não é sua altura, já que no Brasil nunca se ligou mesmo para a altura das pontes e isso vem dos tempos do Império. Quem tiver seus vasos flutuantes que se lixe. O problema são as defensas de proteção dos pilares, que até hoje ninguém se interessou em resolver. Acho que nem o capeta queria estar na pele de um Capitão dos Portos se por um descuido qualquer um navio triscar na estrutura das pilastras.

Numa hora dessas vai ser tanta frase começando com “eu não sabia de nada” e tantos “vamos averiguar” que no final vai sobrar mesmo para quem tiver a infelicidade de estar passando no momento de um acidente.

No mês de Março uma balsa carregada de óleo de dendê se chocou com um pilar de uma ponte no estado do Pará e tudo veio abaixo. E olhem que por lá a FIFA não apita nada.

Eh, até a bola da Copa receber o primeiro ponta pé, muita água ainda vai passar por baixo da ponte.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O Sextante

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Sextante é um instrumento elaborado para medir a distância angular entre um astro e a linha do horizonte. Na navegação marítima ele é de grande importância, pois permite que um navegante bem treinado consiga tirar uma posição com bastante exatidão. O sextante surgiu em 1757 e há mais de duzentos anos se tornou um símbolo da navegação.

Hoje com o advento dos modernos GPS, o aparelhinho espelhado, e por isso mesmo apesar de simples muito frágil, tem ficado jogado dentro das maletas, mas vez por outra aparece um saudosista para ressuscitar sua história.

Dizem que ele ainda faz parte da lista de equipamentos obrigatórios nos grandes navios comerciais e nas frotas militares e fico feliz que seja apenas por lá, pois utilizar o aparelhinho espelhado a bordo de um veleiro de oceano é um Deus nos acuda.

Na prova para tirar carteira de Capitão Amador à autoridade marítima exige conhecimento dos segredos e cálculos sobre navegação astronômica e é justamente ai que o bicho pega. Os astros e seus cálculos de exatidão já tirou a alegria de muita gente boa.

Certa vez embarcamos um amigo que conhece tudo sobre sextante e astronomia para uma viagem até a ilha de Fernando de Noronha. Ele chegou a bordo e foi logo dizendo: Comandante, não vai ser preciso utilizar o GPS, pois as nossas posições tirarei pelo sextante. Respondi que tudo bem, mas decidi comprar mais uma boa quantidade de pilhas para alimentar o GPS. Quem vai ao mar avia-se em terra!

Nem bem saímos na boca da barra da cidade de Recife o caboclo já disse para que veio e o sextante não saiu do saco. Enquanto esperava ele se recuperar liguei o GPS e como ele não se recuperou só desliguei o bicho em Noronha. Ainda bem que comprei mais pilhas.

Estou eu em Salvador e me liga Elson Fernandes, Mucuripe, o mesmo que havia ido para Fernando de Noronha, querendo fazer um passeio pela Baía de Todos os Santos até a Barra do Paraguaçu. Respondi que podia vir e marcamos dele embarcar na Ilha de Itaparica. Ele foi logo dizendo que traria o sextante e que dessa vez a história tomaria outro rumo. Pois bem!

Elson Mucuripe, como ele é mais conhecido é um grande amigo, grande figura humana e dono de uma prosa e musicalidade acima da média, mas como tirador de ângulo é uma graça. Assim que levantamos âncora de Itaparica ele pegou o sextante para tirar a posição. Olhou, anotou, tornou a olhar, fez algumas contas e guardou o aparelhinho. Como quem não quer nada, mas querendo, perguntei sobre a nossa posição e ele respondeu: Acho que vou ter que refazer os cálculos mais tarde, pois por enquanto estamos na costa da Namíbia. Aonde homem do céu? Foi uma gargalhada geral a bordo.

Ancoramos na Barra do Paraguaçu com o Sol nos proporcionando um belo espetáculo no crepúsculo e depois de registrar aquele belo visual, desembarcamos para jantar na casa de Seu Lídio, um outrora comandante pelos mares da Bahia e padrinho da esposa do Mucuripe. Logo após o jantar, onde foi servida uma deliciosa moqueca de siri, lá vem o Mucuripe, meio que desconfiado e com os novos cálculos feitos, reafirmando que realmente naquela tarde estávamos navegando na costa africana. Danou-se! Ainda bem que tenho meu GPS.

Depois do jantar eu e Lucia voltamos para o Avoante e combinamos outra velejada para o dia seguinte, dessa vez até Salinas da Margarida, mas antes de sair iriamos tomar café na casa do Sr. Lídio. Assim que cheguei o Mucuripe me apresentou novos cálculos e dessa vez a coisa estava bem encaminhada, pois havia um erro de “apenas” oito milhas náuticas. Ah bom, pensei que nunca mais iria me achar dentro da Baía de Todos os Santos.

Como Salinas da Margarida fica a pouco mais de quatro milhas náuticas da Barra do Paraguaçu, não foi preciso o uso do sextante e para garantir que iriamos em segurança, entreguei o leme ao capitão de longo curso Lídio, e entre uma visada e outra fui me divertindo com a prosa do Elson Mucuripe e me deliciando com as histórias e experiência vividas pelo comandante Lídio.

Elson garante que um dia ainda vai cruzar os mares do mundo munido apenas de um sextante e uma bússola. Eu não tenho dúvida disso, pois apesar do desnorteamento que passamos, ele é um grande estudioso da navegação astronômica.

Namíbia! Se oriente homem!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Mais um Carnaval que passou

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Com o Avoante ancorado em frente à Ilha de Itaparica, escutando os ecos momesco de mais um Carnaval, me peguei em mais um daqueles momentos de devaneio enquanto olho o mundo sentado sobre o cockpit.

A Bahia tem sim um dos melhores e diversificados carnavais do mundo, mas não pense que o som da guitarra baiana, que hoje anda meio abafado pelas letras de mau gosto de um indecifrável ritmo conhecido como quebradeira, contagia tudo e a todos.

Saíram de cena Dodô, Osmar, Armandinho, Morais Moreira, deuses imaculados que carregaram de energia o frevo e a alma baiana, e entrou no palco o descompasso do nheco nheco, lepo lepo, um tapinha ali, outro naquele lugar e assim o baiano vai virando as costas e esquecendo seus outrora geniais compositores e poetas que deram asas e fama aos batuques dos seus afoxés e a beleza de sua história.

Não quero, não posso, não sei e nem devo mergulhar para chafurdar no que causou esse vácuo de ideias, mas fico intrigado com tanta falta de criatividade e com a maciça difusão dessas letras cantadas até por artistas renomados.

Num sopro mais leve de vento o Avoante balançou na ancoragem e olhei para o alto para decifrar as nuvens carregadas que povoavam o céu. A natureza prometia muita chuva, mas também deixava no ar a esperança de um Sol quente e brilhante. Os foliões não estavam nem ai para a cor da serpentina, já que o importante era que a cerveja estivesse gelada para não perderem a coreografia do lepo lepo. A natureza que se resolvesse!

Mas na verdade eu não olhava para o céu apenas em busca dos sinais emitidos pela natureza. Olhava também a procura de um pequeno monomotor branco que traria nossos amigos de Natal, Dibe, Abigail e Fernando, para passar os dias de Carnaval a bordo do Avoante, quando de repente o som rouco de uma turbina atravessou em meio ao ritmo da quebradeira. O que danado é quebradeira?

O avião sobrevoou a ancoragem, como um abre alas dos ares, e saiu de fininho para descansar da longa viagem no pequeno aeroporto da Ilha. Em terra, um grupo de papangús animava os passantes do calçadão e eu fiquei ali lembrando os antigos carnavais na casa dos meus pais. Eita tempo bom que não volta mais!

O papangú com sua fantasia cravejada de bolas coloridas e sua mascara de alegria era a essência da irreverência que marcou os grandes carnavais do passado em que os clarins davam o tom. Ele faz parte da corte de um rei gorducho, felizardo e invejado por estar ao lado de uma rainha que exala fluidos femininos de encantamento e prazer. O rei ainda reina, mas suas rechonchudas medidas de excelência deu lugar a linhas mais magras que demonstram o declínio de um reinado.

Os papangús que caminhavam na orla de Itaparica me fez sentir que o coração do bom folião ainda pulsa. Sob as fantasias mascaradas visualizei sonhadores que buscavam resgatar a alegria e a paz que precisamos ver espalhadas pelas nossas ruas. Creio que o lepo lepo vai passar como fumaça sobre a terra Brasil, deixando para trás apenas a lembrança do mau gosto gravado em nossos ouvidos, mas o papangú todo ano estará desfilando e nos fazendo reviver para sempre os mais felizes dias de momo.

Um trovão me fez despertar dos devaneios e em seguida o telefone tocou anunciando que os amigos que vieram no aviãozinho branco estavam esperando na marina para embarcar no Avoante.

É muito gostoso receber amigos a bordo do nosso veleirinho que nessas horas se mostra maior do que muito gigante dos mares. Dibe, Abigail e Fernando poderiam muito bem ter escolhido uma boa pousada para passar os dias de Carnaval, mas não, queriam mesmo era o aconchego apertado do nosso Avoante. É sempre assim quando adubamos nossas amizades com o carinho e atenção que toda amizade merece. Não precisamos de nada mais do que a sinceridade, além da alegria estampada no rosto, para ter um bom amigo sempre junto de nós.

Eles vieram para passar apenas um dia, tempo curto demais para matar as saudades e colocar os assuntos em dia, mas como Lucia sempre consegue um pouco a mais da conta, eles ficaram dois dias. A chuva não deixou que fizéssemos uma velejada carnavalesca, e até tentamos, mas ela também não foi suficiente para esfriar os ânimos.

O Carnaval passou, os amigos se foram, os acordes do lepo lepo continua ecoando pelo mundo, os papangús guardaram a fantasia e a Bahia parte agora para outro ritmo. O Avoante continua balançando suave ancorado ao largo da Ilha de Itaparica.

As nuvens se foram, mas hoje percebi que o vento já apresenta sinais de mudança. É a natureza, assim como a vida, seguindo em frente.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Jovens aos oitenta anos

6 Junho  (116)

“… quem sabe faz e quem não sabe ensina no palhoção…”. Com essa frase solta e tão própria de quem já acumulou milhares de milhas abaixo da quilha do veleiro e que sabe muito bem definir o que é verdade e o que é mentira dentro de uma história, começo mais uma folha desse Diário.

A frase estava escrita em meio a um email que recebi do lobo do mar Erico Amorim das Virgens, em que ele falava de um velejador de 85 anos que havia quebrado o mastro do veleiro de 26 pés quando retornava de Natal para a paraibana João Pessoa. A ida do velejador, conhecido como Montarroyos, a capital potiguar havia sido apenas com o objetivo de participar do Circuito de Vela de Oceano do Rio Grande do Norte 2013, que aconteceu no mês de Outubro, que por sinal, ele ganhou todas as provas em que participou.

Aliás, a viagem do Sr. Montarroyos de João Pessoa até Natal já pode se considerar como uma boa aventura, pois na saída ele esqueceu a feira de alimentos no barco de um amigo e às quinze horas do percurso foi apenas se alimentando de brisa, que por sinal é o nome do seu veleiro.

Nem bem terminou a premiação da regata em Natal, sem nenhum sinal de cansaço, Montarroyos levantou as velas e partiu de volta para casa, quando na altura da praia de Tabatinga, litoral potiguar, aconteceu o acidente da quebra do mastro às 22 horas de uma noite escura e de mar agitado.

Depois do susto, a tripulação jogou âncora em mar aberto e foram descansar até o dia clarear. Assim que o Sol nasceu, avaliaram a situação, puxaram o manual do armengueiro, improvisaram um mastro de fortuna e retornaram a Natal. Somente quem viveu uma situação como essa sabe o que é esse desconforto.

Segundo disse Erico Amorim, no retorno a Natal ninguém ouviu uma palavra sequer de insatisfação do comandante Montarroyos, muito menos ele dizer que foi sorte, azar ou coisa parecida. A mesma atitude que ele teve quando esqueceu a comida no barco alheio.

Lendo o relato me veio em mente outros jovens velejadores na faixa dos 80 anos que depositaram no mar seus sonhos de vida e muitos deles ainda cruzando rotas por ai.

Não posso esquecer o grande velejador luso/pernambucano Antônio Marques, que este ano deixou os mares da Terra e foi formar fileiras nas tripulações do Céu. Seu Antônio, como todos o conheciam, era um obstinado por barcos a vela e tinha nas regatas a vitamina que mantinha essa obstinação.

A idade, que para muitos era avançada, nunca foi motivo para ele passar o comando do veleiro Venestal IV para as mãos de outro e digo mais: Seu Antônio gostava das grandes travessias oceânicas. Tanto era assim que alinhou seu Venestal IV na famosa regata que comemorou os 500 anos do descobrimento do Brasil.

Conversar com Seu Antônio sobre o mundo do mar era como fazer um curso de doutorado com um professor excepcional. Não precisávamos dizer nada e muito menos perguntar, tudo fluía macio e na medida exata, feito uma boa regulagem de velas. O que tínhamos de fazer era somente absorver toda aquela melodia de conhecimentos que vinha ao sabor dos ventos alísios que sopravam sobre as varandas do Cabanga Iate Clube. Seu Antônio era um mestre dos mares!

Outro oitentão que povoou minha mente enquanto lia o relato de Erico, foi o pernambucano arretado Epaminondas, mais conhecido como Epa. Esse é um predestinado que até hoje está cruzando os mares a bordo de um veleirinho amarelo de 27 pés, como o simpático nome de Miroca, que segundo ele: Nem dá, nem vende, nem troca.

Sentar com Epa para um bom bate papo é uma alegria, pois ele é dono de uma simpatia apaixonante. Ele gosta de contar que a primeira vez que chegou a Salvador/BA a bordo de um veleiro de 22 pés, acompanhado de dois amigos, as pessoas que o receberam no clube Angra dos Veleiros disseram assim: “Chegou três velhinhos, vindos de Recife, a bordo de um 22 pés”. Naquela época Epa e os amigos estavam na faixa dos sessenta anos. Hoje ele se diverte quando dizem assim: “Chegou um “jovem” de 82 anos, sozinho, a bordo de um 27 pés”.

Com essas lembranças em mente fico feliz quando me vejo vivendo o sonho que um dia me fez observar os muitos horizontes que o mar nos descortina. Fico mais feliz ainda quando certo dia sai do conforto das sombras dos palhoções e, sem olhar para trás, soltei as amarras que prendiam o Avoante ao caís.

Tomara eu chegar aos oitenta anos, navegando pelos mares, a bordo do meu barquinho e de mãos dados com meu amor.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Palavra de pescador

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“Isso é que é embarcação para viajar. Para quem gosta de paz”. O Avoante navegava lentamente nas águas macias que banham o canal interno da Ilha de Itaparica, enquanto minha mente vagava faceira e meus olhos dançavam sobre a paisagem que se debruçava sobre as águas. Fui despertado dos meus devaneios pela frase que começa esse texto, dita por um pescador solitário a bordo de uma tosca e bela embarcação.

O pescador, com um olho no peixe, outro nos movimentos da natureza e os dois atentos a tudo que o cercava, acompanhava a passagem em câmara lenta do Avoante, naquela preguiçosa velejada matinal. De longe eu já havia percebido o seu olhar de admiração diante da aparente tranquilidade da nossa aproximação e que destoava em muito com a passagem furiosa de uma poderosa lancha, minutos atrás, que deve ter mexido com a indignação daquele homem do mar.

A história e os contos náuticos define o homem do mar como pessoa rude e forjada no caldeirão borbulhante de sal, cascas de mariscos, algas e temperado com pitadas dos elementos que castigam e definem a alma, mas nem por isso, menos amáveis e cumpridores das regras. Essa mistura saída das profundezas abissais dos oceanos o deixa solidário, respeitoso com seus pares, e mesmo na atrocidade das guerras, o faz reconhecer a bravura e inteligência inconteste do inimigo. Hoje, nesses tempos modernosos em que a pressa literalmente se definiu como inimiga da perfeição, o homem que se diz do mar perdeu o rumo da história.

Concluí que a frase do pescador, festejando a passagem do Avoante, era sua resposta ao escarcéu motivado pela poderosa lancha que passou a toda velocidade. Diz o manual da boa prática marinheira que uma embarcação ao cruzar ou ultrapassar outra em velocidade inferior, ou que esteja ancorada, principalmente pequena embarcação, deve diminuir a velocidade. Pelo menos é assim que diz a regra da boa educação marinheira.

Mas para que servem as regras se não para serem descaradamente desobedecidas? Se no trânsito das cidades, onde as coisas são infinitamente mais perigosas, policiadas e vigiadas, vemos verdadeiros absurdos, avalie no mar.

O novo homem do mar quer definir sua posição sobre as águas pela potência dos motores que rocam nos porões, como também pela beleza plástica do desenho e pelo valor pago pela embarcação. Para ele não existe nada que breque a sua ânsia de demonstrar poder e sua condição social abastada. E a Lei? Lei? A Lei é para os menores em tamanho e potência.

Certa vez conversando com alguns amigos falei que pretendia comprar uma super lancha, dessas em que o brilho é mais intenso do que o Sol. Perguntaram o por que. Falei que queria ver qual a sensação de passar próximo a veleiros e cumprir a regrar dos militares em desfile, quando passam no palanque das autoridades: Virar o rosto em direção ao palanque e só desfazer o gesto quando terminar o palanque. Pois é assim mesmo que fazem os comandantes e tripulantes das lanchas: Se viram todos para olhar o veleiro sacudir e só desviram quando as marolas diminuem. É um gozo!

Tenho batido nessa tecla várias vezes e vou continuar batendo sempre. Não quero com isso criar inimizades e nem ensinar boas maneiras a quem não tem o menor interesse em aprender, mas quem sabe um dia pelo menos um desses comandantes se conscientize e comece a ver o mar como uma escola para boas atitudes.

Se em um veleiro de oceano, que é preparado para enfrentar grandes ondas e fortes temporais, a coisa é um terror, imagine em uma simples canoa de pesca! Não adianta vir com a desculpa que uma lancha ou moto aquática, mesmo diminuindo a velocidade, provoca marolas retardadas devido à velocidade em que navegam. Pois se é assim, porque não diminuem algumas milhas atrás ou quando sabem que estão próximo a um fundeadouro?

Comandantes e condutores de embarcações que desrespeitam essa regra não devem saber que estão expondo pessoas em perigo real de acidente. Se sabem, e mesmo assim desrespeitam, é porque têm a certeza da impunidade.

Mas não pensem que tudo isso acontece apenas em nosso Brasil tão cheio de mau caminho, pois vivemos em um mundo em que tudo se globaliza, até os costumes e a má educação.

O pescador solitário que festejou a nossa lenta velejada fechou sua frase com a palavra paz. Vindo da boca de um homem simples e que parecia sem muita escolaridade, percebi o quanto o nosso mundo está fora do rumo.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Vida, vento e vela

4 abril (24)

“Corra/não pare/ não pense demais/repare essas velas no caís/… a vida é cigana”. Assim cantou o poeta, compositor e violeiro Geraldo Azevedo, prevendo um mar de águas claras para a caravana que seguia entristecida pelas estradas da vida.

Mais um ano fecha as cortinas para entrar para a história dos tempos idos. Se o ano foi bom, ruim, mais ou menos é difícil essa avaliação, pois cada um sabe das linhas escritas em sua história. Para o Avoante foi um ano de muitos caminhos que rascunharam contos e aprendizados nas páginas que cravejam nosso diário.

Houve tristezas, desilusões, maus dizeres, incompreensões, descaminhos, revanchismos, incertezas, mas o outro lado foi bem melhor, pois houve muitas alegrias, muitas conquistas, muito aprendizado, que nos coloca sempre diante de novos horizontes, numa clara demonstração da beleza da vida. “… não pare”.

Nunca deixei de prestar atenção no movimento das velas no caís, apesar de parar para pensar um pouco além da conta, mas também nunca fui de ficar a espera de um sim caído dos céus. A bordo do nosso veleirinho descobri o quanto a vida é cigana e com asas abertas para festejar e acobertar os sonhadores.

As velas representam para mim o mundo mais sincero da vida. O mundo da paz, da comunhão, o mundo do simples, o mundo real, o mundo da espera e do prazer da conquista. O mundo da sabedoria e da obediência aos sinais da natureza. O mundo em que a lógica vence o cansaço e onde o homem é mais racional.

A vela fascina, embriaga, comove e carrega, em panos branquinhos soprados por alísios macios ou tempestades endiabradas, os sonhos sonhados e não vividos. Um poeta cearense um dia se encantou com as velinhas brancas lá do seu Mucuripe e através delas cantou um amor desiludido, mas nem por isso menos amor.

Com seus vinte e poucos anos de amor, o poeta desejou embarcar nas toscas jangadinhas apaixonantes, soprados pelos ventos que alisam o seu Ceará, para afogar suas magoas nas profundezas dos oceanos. Novamente as velas no caís a despertar sonhos e desvendar horizontes.

Não sou poeta, sou apenas um velejador apaixonado pelo mar, pela vida e por uma marinheira que me abre o mundo dos desejos e dos encantos, mas vejo poesia em tudo que tem o mar como pano de fundo. E esse 2013 que agora fecha as cortinas e se despede do real e entra no mundo dos contos de um passado já distante, me trouxe conquistas, segredos e velas ao vento.

Apesar de morar há nove anos a bordo, nunca navegamos tanto como em 2013. Subimos e descemos em todos os sentidos as águas abençoadas pelo Senhor do Bonfim, destrinchando rotas e cruzando rumos.

Recebemos amigos a bordo, fizemos novos, renovamos amizades, revisitamos o passado, reverenciamos dezenas de pôr do sol, brindamos as conquistas, acreditamos mais nas pessoas e apostamos na paz em novo sentido para a vida.

Não foi a bordo do Avoante, mas em um veleirinho tão bom quanto, que cruzamos as barreiras que nos prendia a Baía Camamu e chegamos aos pés do Cristo Redentor lá nas terras cariocas. Vimos novos mares, sentimos os sussurros de novos ventos e tiramos a prova dos nove, sem zerar a conta, diante da natureza e seus amuos.

Entramos de cabeça no mundo desconhecido, mágico e encantado da literatura, onde a vida e os sonhos se desenham entre as páginas de um livro. O Diário do Avoante agora navega por ai sem fronteiras e derramando luzes coloridas nos sonhos adormecidos de muitos leitores. “… a vida é cigana”.

Tivemos sustos com a saúde apenas por se achar infalíveis, porém paramos diante da realidade do corpo. A vida cobra sim bons modos e achei graça diante de um amigo/médico que disse que deveríamos ter uma melhor qualidade de vida. Como? Tento entender e seguir o conselho. “… não pense demais”.

Dois mil e treze se foi e um novo velho mundo se abrirá em nossa proa. Vamos continuar apostando no mar e diante dele abrir o leque de esperanças. Abriremos ao vento nossa alma e embarcaremos cada vez mais amor e alegria em nosso veleirinho, pois é assim que fazem os bons marinheiros.

Poetas, compositores, violeiros, seresteiros, namorados, escritores, sonhadores, marinheiros, descobridores, todos tem o mar como fonte de paixão e uma grande página em branco pronta para receber a sua história de vida e de amor de qualquer um.

Que venha 2014! “… aquela estrela é bela, vida, vento, vela, leva-me, daqui.”

Nelson Mattos Filho/Velejador

O que escrever no Natal?

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“… o que a minha terra tem de mais riqueza é a água”. Essa frase solta surgiu de uma conversa com um dos muitos meninos que nos acompanhava por entre as trilhas que levam a bela cachoeira de Tremembé, lá na mágica e fascinante Baía de Camamu/BA.

Eu estava sentado sobre uma pedra, e como sempre paralisado diante de tanta beleza em meio a uma natureza em estado bruto, quando o menino chegou e puxou conversa. Primeiro ele disse que a minha vida estava entregue a ele e que faria o possível para me proteger em meio às águas que escorriam sobre pedras lisas e traiçoeiras.

Lógico que o objetivo dele e dos outros treze meninos que apareceram do nada do meio da mata e dos inúmeros igarapés, era ser recompensado pelo serviço voluntário. Somos até tentados a dizer que não precisamos de ajuda e a querer fazer cara feia quando eles surgem em nossa frente e já esticando a mão para auxiliar. Num impulso da mente e da nossa instintiva autodefesa, um não quase consegue escapar da boca, mas felizmente, ele para entre os dentes e retorna ao lugar de onde nunca deveria ter saído, pois sem aqueles meninos a nossa vida entre os segredos daquela cachoeira seria um desastre.

O menino ficou ali ao meu lado e numa fração de segundo me contou um pedaço de sua vida e de como chegou até o distrito de Tremembé, um pequeno povoado pertencente ao município de Maraú, que segundo ele quase não tem nada. Falou que adorava o lugar de sua antiga morada, o distrito do Tanque, também em Maraú, e que a mudança se deu pelo motivo que seu avô havia vendido um pequeno sítio.

Falou dos estudos precários, porém, importantes para ele, e para todos os seus amigos, e disse que se eu quisesse me levaria até o seu povoado, onde havia mais duas cachoeiras tão belas quanto aquela. Um pouco mais abaixo, Lucia conversava com outros meninos e prometia que na próxima visita iria até o povoado deles.

Fiquei ali embasbacado olhando a paisagem que escorria entre as pedras, escutando a conversa alegre, prestativa e educada daqueles meninos e tentando fazer um utópico parâmetro entre eles e os seus muitos pares que habitam nossas grandes cidades, entre eles os nossos próprios filhos.

O que teria de diferente naquelas crianças que as deixavam tão à vontade para falar na riqueza das matas e das águas? Por que elas, diante de tantas necessidades impostas pela vida, não estendiam a mão para pedir e sim para ajudar? Por que nenhuma daquelas crianças portava celular ou um brinquedinho eletrônico? Por que nenhuma delas chegou sequer a insinuar valores em troca do serviço de guia?

Olhando aquele mundo cercado da mais pura natureza e envolvido pela presteza daqueles meninos que somente ofereciam ajuda e nada mais, vi o quanto estamos vivendo em uma época ditada pelo avesso.

A Cachoeira de Tremembé que deságua numa piscina de águas negras, cercada de mata, paz e silêncio é um prêmio para todos aqueles que têm a felicidade de conhecê-la. Em sua volta paira uma áurea imaculada que nós humanos não conseguimos alcançar. As crianças que caminham desinibidas sobre suas pedras, parecem pertencer a um tempo mais sincero e seus risos são mais risonhos.

Em meio aquele nada de nada eles sabem de tudo um pouco e reconhecem e agradecem a riqueza que vem com as águas. O menor deles é apelidado sugestivamente de “pesquisa”. Ele falou que é porque tudo que acontece ele é o primeiro a saber. Será? Eita menino danado!

Há dias venho pensando no que poderia escrever para desejar felicidades para o Natal e o 2014 que vem por ai. Olhando para aquelas crianças que se misturavam entre arvores, águas e igarapés, vi que a vida pode sim ser contada de outra maneira e que sonhos, esperanças, conquistas e futuro têm sentidos diversos.

O menino de Tremembé me ensinou um pouco mais sobre a vida enquanto eu olhava a natureza a minha volta. Ele não precisou de muito para ver a riqueza que escorre pelas pedras da cachoeira e nela deposita seu futuro.

Desejo que nesse Natal você pare apenas um pouquinho para olhar o mundo diverso que existe ao seu redor e que pode ser tão belo quanto você acha que é o seu. Desejo também, desde já, um Ano Novo repleto de paz, harmonia e novos horizontes.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O verão promete

2 fevereiro (121)

Tem alguns assuntos no meio náutico difíceis de serem digeridos por todos os envolvidos. Um deles é a eterna pendenga entre velejadores, lancheiros e agora, mais do que nunca, os motonautas, termo que designa aqueles que utilizam Jet Ski. Na verdade eu nunca entendi bem o porquê da categoria de Motonauta e acho que pouca gente entende. Depois que ela foi inventada na legislação naval a coisa tem ficado cada vez pior. Nunca vi tanto desrespeito às regras de navegação como ultimamente vem acontecendo por parte dos motonautas.

Como acontece com as nossas ruas, o poder público é totalmente ineficiente quando o assunto é fiscalizar e fazer valer a Lei, ainda mais num país continental como é o Brasil e que prevalece a máxima: manda quem pode e obedece quem tem juízo. Pelo que tenho visto por ai nos locais em que navego, o verão 2013/2014 promete. Continue lendo

O livro e os agradecimentos

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Poderia começar mais uma página desse Diário falando das coisas que acontecem no cotidiano dessa vida sobre o mar que tanto me encanta, mas sei que seria uma navegação em um rumo não desejado. Poderia falar de amor, de paixões, de poesia, de gastronomia, de natureza, de lugares, de navegação, de velejadas, de gente ou simplesmente de sonhos, pois adoro falar de sonhos.

Mas não, hoje tenho que falar em agradecimentos, pois foi assim que aprendi com meus pais: Que somente alcançamos a grandeza da vida, quando usamos, em todos os momentos, a humildade de um agradecimento. E hoje tenho sim muito a agradecer, a todos vocês leitores que acompanham pacientemente os escritos dominicais desse Diário, e muitas vezes vibrando, se emocionando, sorrindo, se encantando, sonhando ou mesmo curtindo o sabor de uma deliciosa velejada em um mar de letras.

Quando entrei de cabeça no mundo maravilhoso do mar, nunca imaginei que um dia pudesse estar passando para as pessoas a minha vivência náutica. Sempre achei difícil o mundo das letras e das palavras, pelo grande poder de infinitas traduções que existe na mente do ser humano.

Dizem que a palavra dita um dia será esquecida e que a palavra escrita é para o sempre, mas quase ninguém se refere à ressonância da compreensão. Já se foi o tempo em que o fio do bigode era a melhor e mais respeitada tinta de caneta. O que será que foi feito da ética? Nunca esqueci as palavras de ensinamentos ditas pelos meus pais. Será que sou anormal? Vamos voltar para o nosso rumo, na rota dos agradecimentos, pois foi para isso que abri a página.

Esse Diário do Avoante surgiu do nada, navegando nas ideias iluminadas de um diretor de redação. Segundo ele, os leitores haviam gostado de uma matéria publicada com a gente e ele gostaria de levar mais a frente esse encanto. Vacilei no primeiro momento, mas logo em seguida levantei ancora, subi as velas e parti. Hoje o Diário do Avoante comemora a realização de mais sonho, que nunca eu havia sonhado, e que posso creditar na pessoa do jornalista Carlos Peixoto, diretor de redação da Tribuna do Norte.

Essa semana comemoramos o lançamento do livro Diário do Avoante, sob o selo da editora Caravelas, numa grande noite de confraternização entre leitores, amigos, velejadores e familiares, que encheram os tapetes carregados de cultura da livraria Saraiva, do shopping Midway Mall. Falar em alegria acho que é pouco.

O livro é uma coletânea de cinquenta, entre as cem primeiras crônicas publicadas todos os Domingos na Tribuna do Norte, e que mostram o quanto a vida no mar transformou o nosso modo de ver o mundo, descortinando novos sonhos e diversificando em infinito os horizontes avistados.

Mas meu caro amigo Carlos Peixoto não está só nessa Nau, ao seu lado existe uma grande e valiosa tripulação, pois é assim que navega uma embarcação. O pecado de nominar todos é muito original e por isso não tenho como fugir dele e por isso tenho que navegar nesse mar.

Lógico que posso esquecer-me de agradecer a alguém, mas nunca de você leitor, que é o objetivo maior desse Diário e consequentemente do livro Diário do Avoante. Agradecer também aos colaboradores: Favorito Supermercados; Grupo Vila; Comercial do Trigo; Cristalina de Natal; Teetos Pré-moldados; Farmácias Santa Sara; Equinautic; a pousada gaúcha Esquina do Sol, que atravessou o Brasil para nos prestigiar e ao alagoano restaurante Del Popollo Cantina e Pizzaria.

No mesmo veleiro dos agradecimentos embarco o meu dileto amigo e velejador Luiz Bardou, membro do Ministério Público do Rio Grande do Sul, pelo incentivo em um momento de profunda indecisão. Minha Mãe Iracema Mattos e minha querida Tia Cecília, que, se derretendo de alegria, usaram a força do apoio familiar para realizar o pedacinho de sonho que faltava. E ao editor José Correia, que colocou tudo isso em uma máquina de multiplicar cultura e em seguida retirou do forno em formato de um livro.

Esqueci? Lógico que não, pois muitos outros estão grafados e eternizados nas páginas do livro Diário do Avoante, mas sem ela nada disso teria acontecido: Lucia, minha grande capitã e timoneira dos meus mais ousados e loucos sonhos. É ela que norteia minhas crônicas e com muita serenidade me faz ver que uma mesma palavra muitas vezes tanto pode curar como ferir.

O livro Diário do Avoante enfim está ai, e em suas páginas estão um breve relato das muitas lições que aprendemos com o mar. E só temos a agradecer!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Era uma vez um menino

4 abril (193)

Era uma vez um menino que gostava muito de velejar… . Poderia começar assim esse texto, mas ai ele ficaria muito parecido com os muitos contos que encantaram e ainda continuam encantando gerações mundo afora. Mas é porque não?

Faz tempo que queria escrever sobre o menino, mas sempre tive medo de ser traído pela emoção e de não conseguir dizer o que queria sobre ele. Para mim ele era o máximo que uma criança poderia chegar nos quesitos educação, carinho e atenção para com os adultos. Simplesmente ele era o menino que todos adoravam.

Do mar e principalmente de barcos a vela, ele além de saber tudo era um atento observador. Nada do que fosse relacionado com veleiros e competições a vela passava despercebido da sua visão aguçada. Ele era o menino que todos gostavam.

- Tio, você está vendo as linhas daquele barco? Pronto, a partir daí ele destrinchava um rosário de especificações técnicas de fazer inveja a qualquer projetista naval. O menino tinha sete anos.

Tive a felicidade de estar a bordo de um veleiro onde ele era a criança que de tudo queria saber e nós, os adultos que não tínhamos respostas para tudo o que ele queria. O menino era inquieto por respostas.

Todos queriam estar junto a ele e ele queria estar próximo a todos que tivessem o mar e os barcos a vela como paixão, pois os veleiros eram seu mundo. Certa vez ele me falou que o Avoante era um excelente barco e que eu havia feito uma boa compra. Perguntou se eu iria dar uma volta ao mundo e disse que um dia ainda faria isso.

Sempre olhei para o menino com alegria, mas nunca achei que ele fosse realmente um menino feliz. Faltava alguma coisa na vida daquela criança abençoada que eu não conseguia imaginar o que fosse. O menino vivia as coisas do mar e o mar o acolhia com muita alegria, mas eu não conseguia ver o menino feliz, apesar do riso fácil que iluminava sua face meiga.

A última vez que vi o menino ele tinha oito anos. Saímos para uma rodada de sorvete na Sorveteria da Ribeira, em Salvador/BA, onde ele morou, na companhia dos meus filhos, Nelsinho e Amanda, e ele se encantou com Nelsinho, que para mim é o mais especial das crianças especiais. O menino não tomou sorvete, pois saiu de casa recomendado que não poderia e até hoje não entendi o motivo. O menino era super obediente, apesar do desejo ardente pelo sorvete. Por que será que nós adultos fazemos questão de tolher os desejos mais desejosos das crianças?

Crianças não são para sempre, mas algumas passam tão rápido que ficamos sem acreditar. E o menino se foi! Cadê o menino? Por que será que ele se foi? Quem será que julga a vida das crianças? Será que é Deus? Será por falta de anjos? E o menino foi velejar no Céu. E no Céu têm veleiros? Lógico que sim, pois se não tivesse, o menino não estaria lá. O menino adorava o mar e os veleiros. O menino era adorado por todos que o conheciam.

Dez anos. Nesse último mês de Outubro de 2013 fez dez anos que o menino se foi para os mares do Céu. Hoje ele estaria com 20 anos de dedicação ao mar e aos veleiros que tanto amava. Quando ele se foi, tenho certeza que os seres do mar pararam estarrecidos diante da deslealdade da morte. Foram pegos de surpresa com a passagem da sombra daquele menino num caminhar entristecido sobre as águas a caminho do abraço fraterno dos céus. Netuno deve ter ordenado toque de silêncio e luto de três dias em todos os oceanos do mundo. Éolo deve ter ordenado o mesmo aos fazedores de vento e o mundo da natureza deve ter parado para ver o caminhar entristecido daquele menino franzino no rumo das alturas.

Dez anos sem Thulio Mudri, o menino que um dia veio ao mundo para ser um dos reis dos mares. Aquele que Netuno depositava todas as suas esperanças e Éolo fazia questão de produzir o vento mais que perfeito. Thulio se foi e deixou dentro daqueles que tiveram a felicidade de conhecê-lo a tristeza da saudade.

Thulio era meu amigo/menino em vida e há dez anos é um anjo da guarda a proteger todos aqueles que navegam em barcos a vela pelos mares do mundo, pois é isso que ele sabe fazer de melhor e é isso que ele ama.

Era uma vez um menino que gostava muito de velejar e que num descuido da vida virou um anjo… .

Nelson Mattos Filho/Velejador