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Causos e surpresas

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Muitas vezes é difícil saber em que pé navega a verdade em uma história que tem o mar como pano de fundo. Isso acontece com pescadores, velhos e novos marinheiros e velejadores. Tudo fica enorme quando a emoção passa a valer mais do que a razão, ainda mais quando existe uma plateia avida a ouvir ou quando se quer apenas dar uma pequena valorizada na narrativa acrescentando algumas estrelas douradas de heroísmo.

Final de Outubro de 2014 estive no Iate Clube do Natal para pegar um veleiro e comandá-lo entre Natal e Salvador. Chegando lá fui convidado para fazer parte de um churrasco em que os tripulantes do veleiro Tranquilidade comemoravam, com um pouco de atraso, as participações nas regatas Recife/Fernando de Noronha e Fernando de Noronha/Natal, edições 2014. Para quem acompanha as páginas desse Diário deve lembrar que falei em como essas travessias foram duras para as embarcações e consequentemente deixando marcar profundas em muitos tripulantes. De norte a sul do país a cantilena é uma só: Foi uma viagem terrível!

Mas tudo passou e hoje todos festejam a vida ao sabor de grandes resenhas digeridas com cervejas, vinhos, outras bebidas e fartas lascas de carnes na brasa. E é nessas horas que tudo se transforma e os olhos dos interlocutores se enchem de espanto. Continuar lendo

A lenda de um velho grupo

4 abril (70)

Apreciava o horizonte enquanto o Avoante navegava faceiro e lentamente sobre um mar espelhado quando lembrei-me de um antigo conto, em que narra à história de um grupo de velejadores que se uniu em torno de uma causa e para nunca mais esquecê-lo, resolvi escrever no Diário.

Era uma vez um pequeno grupo que se reuniu para hastear a bandeira de um sonho: Velejar e dar seguimento a missão escrita nos anais da história de um velho clube náutico. O sonho logo se tornou uma feliz realidade, tanto era a vontade daqueles que formavam o grupo. Do sonho brotaram grandes ideias, grandes encontros, grandes amizades e assim, o mundo do mar foi crescendo e invadindo a alma daquele grupo que se tornou grande. Não grande em tamanho, mas grande em todas as formas de fazer valer o espírito da vela como esporte e lazer.

Horizontes foram sendo desbravados em viagens imaginárias nas rodas de bate papo e rotas foram traçadas na certeza que os deuses dos oceanos acolhem de bom grado todos que sonham com um barquinho singrando os mares.

A partir do primeiro encontro outros se seguiram, movidos pela incrível vontade de estarem unidos, porém, logo foi notado que um dia por semana era pouco. Todos tinham muitas ideias acumuladas e precisavam extravasar para que não ficassem esquecidas pelo tempo.

Estabeleceram que esse novo dia fosse início de semana, coladinho ao Domingo, para poderem discutir os temas que fariam parte do grande encontro do meio da semana e assim foi feito. Mais um dia estava decretado e era gostoso ver a alegria reinante. Brincadeiras, gozações, abraços, discursões, comentários, fofocas, receitas, velejadas, mentiras, barco, barco, barco… . Era assim!

Há! É preciso dizer que tudo isso era regado com uma bela e farta mesa de deliciosas receitas e alguns goles das mais saborosas bebidas. Era o famoso encontro etílico-gastronômico em que todos se esmeravam em trazer um pouco para colaborar na dieta de todos.

E no início da semana? Bem, em respeito às leis da sanidade, o encontro desse dia era apenas a base de café, leite, bolo, cuscuz, tapioca, frios, pães, bolachas, biscoitos, queijos… . Ufa!

Quanto mais o grupo se reunia, mais as regatas iam sendo programadas, passeios náuticos enchendo de alegria os finais de semana e assim o sonho de todos era uma feliz e alegre realidade.

De vez em quando, ou quase sempre, pintava um churrasquinho básico para alegrar as tardes/noites de Sábados, Domingos e feriados. O lema era estar unido em prol da causa, então qualquer motivo era um motivo.

Vieram as festas de confraternizações de fim de ano. Os aniversários do grupo. Os parabéns para os aniversariantes do mês. Tudo era motivo. Tudo era legal. Tudo era festa. Tudo era amizade. Tudo era em prol do sonho e o sonho era real. E assim o grupo crescia, porém, passou a ser observado por olhos injetados de inveja e rancor.

O grupo queria invadir os mares, os lagos, os rios e tudo que tivesse uma pocinha de água. Foi assim que um grupal vislumbrou uma bela lagoa apaixonante e teve uma visão fantástica: Várias velas soltas ao vento cruzando toda aquela extensão de águas. Bingo! Estava formado mais uma flotilha, mais um campeonato, mais um encontro, mais amigos, mais alegria, mais velas, mais barcos e mais combustível para o sonho. Como era gostoso!

Olhos que observavam passaram a observar com mais afinco, porém, nada daquele olhar atingia o coração do grupo que era alegre, jovial, para frente, dinâmico, amigável e extremamente unido. Isso mesmo, unido.

As reuniões navegavam em palestras, comemorações juninas, karaokês, festivais de massas, festivais de vinho, despedidas dos velejadores visitantes, bota fora de amigos, carnavais, luau, pôr do sol, noitadas de violão e mais um sem número de programações que em muitas semanas eram diárias.

Pensou-se em criar uma escolinha de vela, para dar seguimento futuro às boas novas, pois a que havia existido em outros tempos estava abandonada e empoeirada no fundo de uma bacia de egos. A escolinha até ensaiou um retorno às águas e os velhos barquinhos voltaram a navegar cheios de alegria, mas num lampejo repentino, suas velas foram confiscadas pela covardia de algum olho que espreitava e se recolheu ao nada.

Num certo dia de verão, ventos contrários atingiram a embarcação do grupo que ainda tentou manter as velas enfunadas, mas seus membros se sentiram cansados para comandar uma nau tão carregada de sonhos em um mar tão tempestuoso. Diz à lenda que o grupo ainda sobrevive, mas ai a história é outra.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Uma viagem para poucos – V

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O mar não forma e nem transforma simples mortais em heróis, por isso é que os grandes marinheiros sabem respeitá-lo. Muitas vezes escutamos vozes entoando discursos de coragem e bravura diante do mar, mas no fundo elas não passam de palavras soltas ao vento.

Com o Argos III acuado por ondas desencontradas e ventos fortes mudamos o rumo para adentrar a Barra do Rio Potengi, em Natal. Naquele oceano de mar e guerra estávamos sozinhos para contar o que víamos sem precisar enveredar por fantasiosas meias verdades.

A bordo as coisas funcionavam normalmente e na mesma tranquilidade que existia desde o começo de nossa peleja. Uma brincadeira, uma piada, um causo, um lanchinho e a lembrança que na geladeira algumas cervejas esperavam ânimo para serem digeridas. Passava pouco mais das 13 horas de uma Sexta-Feira quando enfim cruzamos a Barra de Natal deixando para trás a força dos elementos. Continuar lendo

Uma viagem para poucos – IV

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Caro tripulante desse Diário, juro que não pensei que essa história iria se estender tanto e ao acrescentar o número quatro após o título me dei conta do tamanho da encrenca que estou tentando descrever sem deixar você cansado. Já recebi alguns e-mails de amigos querendo que eu adiante os fatos e parta logo para os finalmentes, mas não é bem assim, pois a vida precisa de calma para ser vivida e o melhor dela está nas entrelinhas.

Encerrei o capítulo três aproado no rumo da praia de Caiçara do Norte/RN, uma das mais belas praias do litoral potiguar. Rumamos para lá na esperança de reabastecer os tanques de combustível do Argos III, porque até ai não conseguimos abrir as velas em nenhum momento da viagem. Bem que poderíamos tentar, mas isso tornaria a navegada um pouco mais desconfortável do que já estava, além de que, tínhamos data para chegar a Cabedelo/PB.

Chegamos a Caiçara no finzinho de uma bela tarde emoldurada com um esplendido pôr do sol. Jogamos âncora umas três vezes e em nenhuma delas tivemos sucesso. O vento estava forte e o fundo de areia dura não permitia que a âncora unhasse. Um pescador indicou uma poita de um barco de pesca e afirmou que não teríamos problemas, porque era um ferro muito pesado. Continuar lendo

Uma viagem para poucos – III

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Depois de dois capítulos de lero lero e enveredando nos caminhos da filosofia de caís, chegou a hora de soltar as amarras que prendiam o Argos III ao píer da Marina Park, em Fortaleza/CE, para seguir no rumo do vento em direção a Cabedelo/PB, numa viagem dura, pretenciosa, mas nem por isso menos instigante.

Deixamos Fortaleza no finalzinho da tarde de uma Terça-Feira ensolarada. No píer o Armando Banzay, gerente da marina, e o Eudes, marinheiro, estavam a postos para soltar os cabos e nos desejar bons ventos até a Paraíba. Como velejador é um povo solidário e sempre pronto a ajudar, do veleiro Utopia, que estava ao nosso lado, surgiu o velejador solitário Marcão para auxiliar na faina de desatracação.

Conheci o Marcão há uns dez anos atrás quando ele passou por Natal em rumo batido para sua primeira volta ao mundo, também em solitário, e foi uma alegria encontrá-lo em Fortaleza já a caminho de mais uns bordos pelos oceanos que banham o nosso planeta. Quando queremos verdadeiramente realizar um sonho à utopia passa a ser apenas o veículo motivador.

O Argos III saiu de mansinho e espreitando o mar que roncava por trás do molhe do porto. O vento era o esperado japonês, na cara, mas a beleza do pôr do sol mudou o nosso foco e assim, nem percebemos quando a bela capital cearense foi ficando cada vez mais pequenininha. A natureza é incrivelmente fantástica! Continuar lendo

Uma viagem para poucos – II

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O título dessa série de crônicas me veio em mente num dos piores momentos da navegada entre Fortaleza/CE e Cabedelo/PB, enquanto cruzávamos o Cabo de São Roque, no litoral do Rio Grande do Norte. Naquele momento pensei no livro, Uma Viagem para Loucos, que conta os primórdios de uma das regatas mais famosas do mundo e que tem como objetivo cruzar os mais tenebrosos cabos, enfrentando os mais temerosos mares, e fiquei matutando em como aqueles homens, velejando em solitário, eram valentes e valorosos com o pouco que dispunham em seus veleiros.

Lógico que nem de longe estávamos enfrentando o desafio daqueles velejadores que se tornaram lenda e referência para o mundo da vela, e nem em sonho tenho a intenção e nem o egoísmo de me tornar um deles, pois meu voo é baixinho como o de um anum. Porém, aquele mar do litoral potiguar me instigou os sentidos e me deixou a cada onda que vencíamos mais alerta.

Mas antes de prosseguir na narrativa, quero pedir um pouco de paciência aos leitores que apenas amam o mar e embarcam comigo semanalmente nas páginas desse Diário, para poder dar alguns detalhes técnicos do catamarã Argos III, o grande guerreiro dessa história, porque a turma de velejadores e afins, que também nos acompanha, implora aos quatro ventos. Continuar lendo

Carta ao meu Pai

PapaiPapai, hoje é mais um dia de te homenagear. Aliás, todos os dias é o dia de te render homenagem e também a todos os pais do mundo, pois vocês são tão especiais que facilmente se transformam em nossos super heróis.

Hoje olhando para trás me espantei em como a vida caminha rápido. Parece que foi ontem que ouvi o seu trombone acariciar o mundo pela última vez, com aquelas melodias tão suaves que somente o senhor sabia reproduzir. Em meu coração ainda ressoa a alegria de te ouvir tocar com aquele gingado inconfundível. O senhor era o máximo e até os seus colegas de música eram seus fãs.

Por falar nisso, como vai à orquestra do céu nesses tempos de grandes aquisições literárias para o reino do paraíso? Fico imaginando em como deve ter sido boa a festança para recepcionar os incríveis contadores de histórias, causos e contos Ubaldo e Suassuna. Com certeza o senhor deve ter puxado um frevo ou um chorinho para a triunfal entrada desses imortais no mundo dos encantados. Aliás, vocês são todos imortais.

Por aqui a vida segue em frente, mas não com aquela expectativa que tínhamos sobre os futuristas anos dois mil. Nada de carros voadores, naves espaciais cruzando os céus das grandes metrópoles, exércitos de robôs e nem armas de raio lazer. A Lua e o planeta Marte continuam desabitados e nenhum sinal que um dia será. O mundo parece que tem caminhado para trás, tamanho é a barbárie e a crueldade que exalam odores pelos poros das cidades.

Já estamos em 2014 e continuamos convivendo com as mesmas doenças de outrora. A fome continua caminhando faceira pelo mundo. Crianças continuam morrendo e agora também por leniência dos pais e autoridades. Idosos continuam injustiçados e continuamos apostando nas mesmas fórmulas mágicas ditadas pelos espertos da vez. Somos mesmo engraçados e fáceis de deixar manipular.

As guerras são as mesmas, os novos vilões usam os mesmos trejeitos dos antigos, os donos do mundo continuam zoando a nossa paciência, nosso Brasil continua cercado de currais, o expresso 2222 ainda não circulou e o seu Rio de Janeiro continua lindo, mas com ressalvas.

Pai sabe de uma coisa, vou deixar essas notícias ruins de lado e vou falar de coisas boas. Sim, nossa Ceminha está cada dia mais linda e maravilhosa. Dia desses ela andou fazendo umas estripulias que deixou todos nós em polvorosa, mas tudo não passou de um grande susto e a alegria voltou a reinar em nossa casa. Ceminha continua forte como sempre foi.

Continuo no mar e o Avoante continua sendo minha morada por essa vida meio louca e nômade que inventei viver. Até já andei pensando em desembarcar, mas em terra é tudo tão incerto e nebuloso que o pensamento logo se desfaz no vento. Pai, o mundo está muito complicado, amuado e parece até que todos falam línguas diferentes. No mar a vida é mais humana, mais simples e marinheiros se entendem apenas com gestos e intenções.

Ainda guardo na memoria suas histórias dos tempos de Marinha do Brasil e sempre que estou navegando me pego vigiando o horizonte em busca de algum sinal de sua presença. Vou confessar um segredo: Dia desses escutei claramente sua voz enquanto ao longe surgiam nuvens escuras. Olhei ao redor e não vi ninguém e Lucia dormia tranquilamente embalada pelo balanço do barco. Aquilo foi um chamado de alerta e uma indicação de mudança de rumo e sabe Deus se não foi realmente o senhor que estava ali a nos proteger.

Na verdade nem sei o porquê de estar lhe dizendo tudo isso, pois tenho a mais absoluta certeza que o senhor sabe de tudo o que acontece aqui e até esteve junto de Ceminha durante a enfermidade que a derrubou por alguns dias. Talvez seja porque necessito saber mais sobre sua vida ai em cima ou mesmo escutar sua voz ao menos mais uma vez.

Sinto sua falta todos os dias desde sua partida. Naquele dia o senhor era um homem de alma jovem, apaixonado pela vida e por incrível que pareça, tinha um pouco mais do que a minha idade hoje. Naquele dia o senhor queria me dizer alguma coisa, mas as palavras insistiam em se misturar com o nada. Corri como um louco pelas ruas da cidade, mas infelizmente não consegui chegar a tempo. Perdoe-me Pai.

Queria poder lhe dar um abraço apertado, um beijo em sua face, alisar seus belos cabelos brancos, dizer que te amo, levantar mais um brinde, escutar mais uma vez seus discursos entre os amigos e ouvir aquela velha frase do seu grande amigo, Bianor Medeiros, que o senhor gostava de repetir: Por que choras…?

Choro por você meu Pai! Um grande beijo e feliz dia dos Pais.

Nelson Mattos Filho/Velejador