Saudades de casa

3 Março (224)

Quinze dias é uma eternidade! Esse é o sentimento que temos depois de estar longe do nosso Avoante tanto tempo. Espere mais um pouquinho querido veleirinho que estamos chegando. 

A Copa e a Ponte

ponte roubada (4) 

Nada como colocar o rosto no vento e escutar os sussurros que chegam como uma grande algazarra festejando o infortúnio que vem no rastro das grandes decisões equivocadas dos homens. Somos mesmo uma raça orgulhosa e cheia de vaidade tola quando temos a nosso favor a caneta da decisão. Mais vaidosos ficamos quando somos convidados para aplaudir em primeira mão as benesses que algum poderoso de plantão arma para nos iludir.

Sempre falamos mal dos famosos dribles governamentais apelidados de pão e circo, mas basta um afago qualquer que escancaramos a cara em um largo sorriso de aprovação, enquanto brindamos a cada copo servido com o líquido dos melhores rótulos. Somos bons nisso e aposto uma boa dose de cachaça Rainha se alguém me provar que nunca enveredou nessa seara.

Com a chuva caindo lá fora e o Avoante ancorado há muitas milhas de distância, numa breve férias de outono, passo horas do meu ócio voluntário a futucar notícias pela internet e me espanto a cada segundo com a ligeireza do mundo digital. É tudo num piscar de olhos e quem quiser que se meta a besta de tentar por um cabresto na fera.

Se um esquimó pula a cerca e entra numa fria lá no fim do mundo, no segundo seguinte um piauiense, de um Piauí mais quente, fica sabendo da fofoca gelada. Eita mundinho que ficou pequeno!

Mas com tanta ligeireza e com tanta informação rodando o mundo e se cruzando nas vias imaginárias da informática, ainda me abestalho com algumas notícias estampadas nas capas dos jornais como se fosse a maior das novidades do mundo. Tem mais novidade não homem de Deus, o que falta é uma boa investigação jornalista para se chegar aos fatos sem paixão ou ideologia.

Em uma dessas minhas navegadas pelas páginas da web me deparei com a história de um belo transatlântico mexicano que pretendia ancorar em Natal para desembarcar torcedores desejosos em assistir a Copa do Mundo. Pretendia, pois a altura da Ponte Newton Navarro não permite. Alias, não permite e todo mundo que flutua nas águas governamentais e turísticas já estão cansados de saber que não permite. Só não entendi o porquê do espanto!

Certa vez fui taxado de opositor e reacionário por dizer que a Ponte estava sendo construída em local errado. Para não perder a alegria apenas sorri e deixei o assunto morrer em cima da mesa. Novamente fui rebatido quando falei que a Ponte não estava concluída e não entendia o porquê da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte liberar a navegação sob ela. Dessa vez foi um Deus nos acuda e meu interlocutor ainda me fez duas perguntas instigantes: “Não está pronta?” “E aqueles carros passando ali em cima é miragem?”.

Como gosto de cutucar o cão com vara curta emendei: Não está pronta e ainda limitou o acesso ao Porto. Pronto, fechou o tempo!

Bem, a Copa do Mundo já está dando seus dribles pelas arenas construídas Brasil afora, mesmo sem a bola estar rolando, e a cada dia vamos assistindo o festival de faltas e penalidades máximas se esparramando pelos gramados dos noticiários. Se são fatos verídicos ou simples imaginação da mente fértil de opositores eu não sei, mas que tem muito lance merecendo um tira teima isso tem.

O lance do navio mexicano em Natal não vai precisar de tira teima, pois acho que não aparecerá nenhuma viva alma, nem mesmo os deuses da FIFA, para autorizar o teste. Os mexicanos vão rumar direto para a capital pernambucana e depois de dançar frevo e maracatu, os chapelões pegaram um buzão pelas estradas da vida.

Mas o problema maior da Ponte de Todos não é sua altura, já que no Brasil nunca se ligou mesmo para a altura das pontes e isso vem dos tempos do Império. Quem tiver seus vasos flutuantes que se lixe. O problema são as defensas de proteção dos pilares, que até hoje ninguém se interessou em resolver. Acho que nem o capeta queria estar na pele de um Capitão dos Portos se por um descuido qualquer um navio triscar na estrutura das pilastras.

Numa hora dessas vai ser tanta frase começando com “eu não sabia de nada” e tantos “vamos averiguar” que no final vai sobrar mesmo para quem tiver a infelicidade de estar passando no momento de um acidente.

No mês de Março uma balsa carregada de óleo de dendê se chocou com um pilar de uma ponte no estado do Pará e tudo veio abaixo. E olhem que por lá a FIFA não apita nada.

Eh, até a bola da Copa receber o primeiro ponta pé, muita água ainda vai passar por baixo da ponte.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Aprendizados

3 Março (203)

“…ando navegando sobre as águas da sabedoria. Ela tem remanso diferente do da inteligência. O rio dos intelectuais é mais claro e sem muitas curvas. Já o rio dos sábios é turvo e sinuoso. Requer habilidade para uma navegação segura. Eu vou aprendendo.” Fragmentos do livro Tempo de Esperas, do Padre Fábio de Melo.

Cruzeirando na foz do Rio São Francisco – Capítulo II

Cruzeirando9Nesse Domingo, 13/04, em que o mapa do Brasil se divide entre chuvas, ventanias, muitas nuvens, Sol, seca e muito calor em Natal/RN, vamos seguir navegando no texto do velejador baiano Sérgio Netto, Pinauna, lá pelas águas rasas e misteriosas do velho Rio São Francisco.

CRUZEIRANDO NA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO – CAPÍTULO II

Na imagem acima, de 2011, a barra N-S que deixamos a barlavento protege as passagens de oeste da arrebentação. Esta barra conforme mapeada na carta náutica (compare acima), tinha uma posição bem diferente, mostrando a dinâmica da foz do São Francisco. A entrada de leste, mais ampla e usada pelos barcos de pesca maiores estava quebrando todo o tempo que ficamos por lá. Do lado de Sergipe, a vila do Cabeço foi totalmente destruída com a erosão, e o antigo farol que ficava na vila hoje é deixado por boreste por quem entra; o canal agora está sobre as ruínas da vila.

Cruzeirando10Puxamos a âncora com meia maré, contornamos a barra no extremo sudeste de Sergipe e ancoramos na praia a sotavento da barra filado com o vento, no ponto que no mapa da p.4 está a norte de onde está marcado Vila, e na carta 1002 da DHN, desatualizada, está registrada uma estação maregráfica. Esta vila é o novo Cabeço, com seis casas e uma igreja pequena na parte alta da barreira. A vegetação rasteira de hidrofiláceas serve de pasto para os búfalos.

Cruzeirando11Beto Lia e Lara foram de caíque na vila e foram recebidos por Flavio, reformado da Policia Militar como enfermeiro. Ele fez um caminho de tábuas por onde passa com o carrinho de mão por sobre o areião. Plantou um pomar de 0,3 ha. na parte alta do areião, que ele rega toda madrugada com água dos poços rasos que perfurou e completou a 4,5m de profundidade. Da próxima vez que for lá vou levar para ele um rolo de tubo de polietileno de irrigação. O ribeirinho aqui é muito hospitaleiro, e à tarde um canoeiro foi nos oferecer um xaréu de 3kg. No processo de assar o xaréu no forno acabou um bujão de gás.Cruzeirando12No dia 21 saímos na enchente da manhã para deixar Beto em Piaçabuçu, almoçar em terra e reabastecer o bujão de gás. Na subida do rio o piloto automático deixou de funcionar, o que me deu um frio na espinha. Liguei para Igor, que perguntou a mensagem de erro do piloto, fez um diagnóstico e me deu instruções de como proceder. Fui executando os procedimentos e localizei um fusível de 25 ampères com corrosão, que André que é mais jeitoso lixou e o piloto voltou a funcionar. Ufa! Nem pensar em timonear por dois dias no retorno. Em Piaçabuçu Liana adotou um garoto de 11 anos, Alexandre, muito esperto, que operou como nosso guia e almoçou conosco. No retorno ancoramos no perau ao lado das dunas móveis na costa alagoana, no ponto onde param os barcos de turismo. Nos anos 60, quando havia exploração de petróleo por aqui, uma manhã o tratorista estava futucando as dunas migratórias com uma vara. – O que você está fazendo? – Procurando um D8!Cruzeirando13Cruzeirando14

.Dia 22 o pessoal ficou de leseira fazendo nada, e eu troquei as válvulas da bomba da latrina que estava com vazamento. Lara passou a escova na linha d’água e limpou o casco de uma das canoas impregnado de algas oceânicas; quando eu elogiei o trabalho, ela disse ‘foi até divertido’. À tarde fomos caminhar na praia de fora da barreira e observar a barra arrebentando na maré cheia. A areia da barra emersa em Sergipe é de grã média e mergulha para dentro com estratificação horizontal, que interpretei como o registro do back-shore, formado quando o nível do mar estava mais alto 5m, o que na curva de variação eustática feita para a Bahia ocorreu há 5,1 mil anos, na época que cresceram os recifes de Abrolhos. A alimentação de sedimentos na foz do rio São Francisco, que tem uma vazão média de 2700m3/seg, manteve a barra estável enquanto o nível do mar descia para a altura atual, desenvolvendoCruzeirando15

vegetação, mas dois fatores contribuem para a erosão que André mediu de 120 metros em 5 anos: as barragens das usinas hidroelétricas no médio S.Francisco, que retém a carga de fundo a montante, e a elevação do nível do mar, que mata a vegetação desestabilizando a barreira que é levada pela corrente litorânea. No processo, da antiga vila de Cabeço, onde nasceu o Flávio, restam as ruínas da escola e do cemitério que engancham as redes de pesca, e o farol abandonado para fora do canal atual. A Marinha instalou um farol novo a barlavento sobre as dunas no lado alagoano do rio.

Em defesa de uma jangada esquecida

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“Minha jangada vai sair pro mar/Vou trabalhar, meu bem querer/Se Deus quiser quando eu voltar, do mar/um peixe bom, eu vou trazer…/Meus companheiros também vão voltar/E a Deus do céu vamos agradecer…” Assim cantou Dorival Caymmi em sua bela poesia Suíte dos Pescadores.

Na bela cidade do Natal, que Câmara Cascudo carinhosamente apelidou de Noiva do Sol, existe na beira do mar uma jangada esquecida. Ela está lá, sofrendo calada e a cada dia sentindo que o seus dias estão próximos do fim. A pobre jangada, símbolo maior de um nordeste praieiro, se desmancha sob o Sol. Suas velas já se foram, talvez levadas pela sutileza dos ventos alísios, tão comuns nessas paisagens, na tentativa de aliviar a sua dor. A idosa embarcação, que há muito deixou a lida dos mares, se ofereceu para posar numa praça com o sugestivo nome de Praça da Jangada, pensando ela que sua voluntária exposição trouxesse sangue novo as suas irmãs de alma marinheira e também que sua beleza fosse levada aos quatro cantos do mundo`pelos clicks fotográficos dos milhares de turistas que visitam a cidade dos Magos. Nada de nada, pois sua vida passou a depender da boa vontade do prefeito da vez e nem sempre a causa deles é a causa do mar. Dizem, o que não acredito nem a pau, que o prefeito atual mora em frente a esse monumento esquecido. Se isso for mesmo verdade, o alcaide todos os dias, ao abrir a janela do seu quarto, deve dar de cara com a dor de uma embarcação jogada a própria sorte em cima de um passeio público. Mas é assim mesmo, aprendi que nessa vida de tantos desenganos e maledicências governamentais não seria uma pobre jangada a despertar atenções. Isso não é uma denúncia, é apenas uma solitária defesa de uma jangadinha esquecida que pede socorro. Praieira dos meus amores/Encanto do meu olhar!/ Quero contar-te os rigores/ Sofridos a pensar/ Em ti sobre o alto mar…” .E assim escreveu o poeta Otoniel Menezes em sua magistral Serenata do Pescador, conhecida também por Praieira, que alias, pelo decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de 1971, o governo municipal de Natal considerou o poema musicado por Eduardo Medeiros, o “Hino da Cidade”.

Terceiro Distrito Naval constrói nova sede

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O Terceiro Distrito Naval, que vem a ser o maior comando naval brasileiro e hoje esta localizado na Avenida Hermes da Fonseca, em Natal/RN, em breve deverá mudar para as margens do Rio Potengi. Disse em breve, mas pelo navegar da Nau os ventos por enquanto estão contrários. No novo terreno, localizado no Bairro de Santos Reis, vizinho ao Iate Clube do Natal e da Rampa, uma antiga base militar de hidroaviões e historicamente conhecida por ser o local onde foi selado a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, já está montado o canteiro de obras, mas por enquanto é só. A obra está parada desde Dezembro de 2013 para justes técnicos e precisou de novas licenças ambientais. A principal modificação é para aumento do píer que inicialmente receberia embarcações de pequeno porte e agora vai poder atracar embarcações de até 2.100 toneladas. A promessa é que os trabalhos retomem nesse mês de Abril. O fundeadouro do Potengi para barcos amadores vai ficando cada vez mais espremido. Vamos aguardar!     

Visita a Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte

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Sou velejador, sou do mar, sou mais o mar, defendo e apoio todos aqueles que olham o mar e o povo que nele navega com carinho e atenção. Tenho respeito pela Marinha do Brasil, alias, sempre tive, pois meu Pai defendeu suas armas e bandeiras como Sargento-Músico nos idos anos da Segunda Guerra Mundial. Tenho a Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte como uma grande mão amiga e sempre procurei cativar boas e velhas amizades nos seus quadros, não fazendo nenhuma distinção de hierarquia, pois considero, e nisso fiz curso de doutorado com Lucia, que o bom da vida são as amizades que construímos e regamos sempre.  Hoje, 09/04, aproveitando mais uma breve estada em Natal, fui a CPRN conhecer e dar um abraço no seu novo comandante, o Capitão-de-Fragata ALEXANDER NEVES DE ASSUMPÇÃO. Desejo ao novo comandante bons ventos e mares tranquilos durante a sua missão.